Aposentada se torna jornalista no Turcomenistão, apesar do perigo

Christopher RICKLETON
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Foto tirada em setembro de 2019 e fornecida pela família da jornalista Soltan Atchilova

A septuagenária Soltan Atchilova encontrou sua vocação e é perigosa: documentar a difícil realidade da vida cotidiana no Turcomenistão, um país autoritário da Ásia Central, cujas autoridades proclamaram uma era de "felicidade".

Para a imprensa estrangeira, ela relata as casas destruídas ilegalmente, as longas filas de espera para receber cupons de alimentação e as demissões abusivas, uma exceção nesta ex-república soviética onde a informação é altamente controlada.

Os temas de seus artigos são "escolhidos conversando com as pessoas sobre os problemas que enfrentam diariamente", explica por e-mail à AFP a ex-contadora de 72 anos, que está proibida de deixar o Turcomenistão.

E, acima de tudo, testemunham uma realidade muito distante da "era da grandeza e da felicidade" elogiada pela mídia oficial e pelo presidente, Gourbanguly Berdymoukhamedov.

As publicações valeram a Atchilova reiterados ataques, segundo relata, mantendo a cabeça coberta com um lenço tradicional.

Em 2016, foi ferida no pescoço e na cabeça ao ser atropelada por quatro homens em uma bicicleta. Em 2018, levou um soco no rosto que a deixou inconsciente.

Frequentemente, alguém tenta roubar sua câmera.

Os temas "são perigosos para as autoridades porque mostram coisas que elas escondem ou se recusam a reconhecer", escreve Soltan Atchilova, que trabalha principalmente para a mídia americana Radio Free Europe e para o site Chronicle of Turkmenistan, com sede em Viena.

Este ano, ela é uma das finalistas do prestigioso prêmio Martin Ennals, que premia defensores dos direitos humanos, junto com a saudita defensora dos direitos das mulheres Lukhain Al Hathlul e do advogada chinês Yu Wensheng, ambos encarcerados.

- Mais uma mentira -

Soltan Atchilova voltou-se para o jornalismo em 2006, depois de uma desventura quase banal no Turcomenistão: a destruição de sua casa pelas autoridades, sob o pretexto de que havia sido construída ilegalmente e que a capital do país, Ashkhabad, deveria ser "reconstruída".

Quando suas tentativas de obter reparação falharam, recorreu à mídia estrangeira para defender sua causa e decidiu que defender a de outros seria sua nova profissão.

Desde então, tem contribuído com a sua experiência pessoal para várias investigações sobre as violações do direito à habitação no país, em particular no âmbito das organizações de eventos esportivos que se tornaram - como noutros países ricos em recursos naturais, mas pouco preocupados com os direitos humanos - um pilar da diplomacia.

Enquanto Gourbanguly Berdymoukhamedov aparecia a cavalo, pedalando ou levantando pesos, o país de 5,5 milhões de habitantes obteve a organização em 2021 dos campeonatos mundiais de ciclismo de pista.

Em 2017, sediou os Jogos Asiáticos indoor. Na ocasião, milhares de moradores de Ashjabad foram expulsos de suas casas, sem compensação adequada, para abrir caminho para luxuosos edifícios de mármore branco.

Atchilova "se formou em jornalismo aos 50 anos. E, apesar de sua saúde frágil, ela ainda está no campo, em busca de pessoas e histórias", elogia Farid Toukhbatoulline, chefe da ONG "Iniciativa Turcomena pelos Direitos Humanos", que supervisiona Crônicas de Turcomenistão.

No entanto, há um ano Soltan Atchilova tem problemas para circular pelo país, uma vez que a liberdade de circulação foi severamente restringida para combater a propagação de "doenças infecciosas perigosas".

Esse é o eufemismo para a pandemia no Turcomenistão, embora as autoridades sustentem que nenhum caso de covid-19 foi registrado.

Mais uma mentira, segundo a jornalista. "Não é verdade. Vemos que perdemos nossos entes queridos, nossos conhecidos", assegura.

"Os mortos nos hospitais são entregues aos seus parentes embrulhados em celofane, com um aviso: enterre-os sem abrir".

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