Aposentar-se mais cedo pode acelerar declínio cognitivo em idosos; entenda por quê

Um estudo conduzido por uma dupla de pesquisadores da Universidade Binghamton, em Nova York, nos Estados Unidos, mostrou que aposentar-se mais cedo pode acelerar o declínio cognitivo entre os idosos. Os achados, publicados na revista científica Journal of Economic Behavior & Organization, reforçam a importância de atividades com participação social e estímulos cerebrais para a população mais velha.

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Os cientistas utilizaram informações fornecidas pelo governo chinês do Novo Regime de Pensões Rurais da China (NRPS), um programa de aposentadorias do país para indivíduos a partir de 60 anos, coletadas entre 2009 e 2013. Em seguida, as relacionaram com dados da Pesquisa Longitudinal de Saúde e Aposentadoria Chinesa (CHARLS), um levantamento nacional com pessoas acima de 45 anos que realiza testes de cognição e memória.

Os responsáveis pelo estudo observaram que a adesão ao programa de aposentadorias levou a uma melhora em determinados aspectos de saúde, como na redução do consumo de álcool e do tabagismo. “A saída do mercado de trabalho pode beneficiar aqueles que se aposentam totalmente por meio da redução do estresse, melhora da dieta e sono melhor”, complementam os pesquisadores no estudo.

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No entanto, um impacto negativo foi observado nas funções cognitivas. Cerca de quatro anos após a aposentadoria, foi observado um declínio no desempenho dos testes de cognição e de memória de aproximadamente 12% em comparação com o que se esperaria no período, o que piorou com o passar do tempo.

“Ao longo dos quase 10 anos desde a sua implementação, o programa levou a um declínio no desempenho cognitivo de quase um quinto do desvio padrão nas medidas de memória que examinamos”, diz Plamen Nikolov, professor da universidade e autor do estudo, em comunicado

Uma das respostas pode estar na falta da interação com outros indivíduos com a saída do mercado de trabalho, uma vez que muitos destes idosos não utilizam o tempo livre para aderir a novas atividades.

“Os participantes do programa (de aposentadoria) relataram níveis substancialmente mais baixos de engajamento social, com taxas significativamente mais baixas de voluntariado e interação social do que os não beneficiários. Descobrimos que o aumento do isolamento social está fortemente ligado ao declínio cognitivo mais rápido entre os idosos”, afirma Nikolov.

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Esse malefício foi observado ainda que outras medidas de saúde relacionadas a uma proteção da cognição, como o sono, tenham melhorado. Para o pesquisador, isso sugere que “envolvimento social e a conexão podem ser simplesmente os fatores mais poderosos para o desempenho cognitivo na velhice”.

Os pesquisadores reforçam ainda que os resultados estão em linha com outros trabalhos conduzidos em países de maior renda, como nos Estados Unidos, na Inglaterra e em nações da União Europeia.

“Esperamos que nossas descobertas influenciem a forma como os aposentados veem suas atividades de aposentadoria de uma perspectiva mais holística e prestam atenção especial ao seu envolvimento social, voluntariado ativo e participação em atividades que promovem sua acuidade mental”, orienta Nikolov.

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Além disso, o pesquisador espera que os achados auxiliem na elaboração de políticas públicas destinadas à população idosa ao entrar na aposentadoria.

“As deficiências cognitivas entre os idosos, mesmo que não sejam severamente debilitantes, acarretam perda de qualidade de vida e podem trazer consequências negativas para o bem-estar. Os formuladores de políticas podem introduzir políticas destinadas a amortecer a redução do engajamento social e das atividades mentais. Nesse sentido, os programas de aposentadoria podem gerar repercussões positivas para o estado de saúde dos aposentados sem o efeito negativo associado em sua cognição”, sugere.