Apreensão de armas no Estado do Rio despenca

Luã Marinatto
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Pela primeira vez em mais de duas décadas, o estado do Rio registrou, ao longo de um ano, menos de 7 mil armas de fogo apreendidas. Em meio à pandemia, as forças de segurança retiraram das ruas 6.440 armamentos, o menor número desde o início da série histórica, em 2000, como indica o Instituto de Segurança Pública (ISP). Na comparação com 2019, quando houve 8.423 apreensões, a redução é de 23,5% — é como se, em média, cinco armas a mais permanecessem em circulação por dia em 2020.

O impacto desse fenômeno foi mais intenso entre os fuzis, tipo de arma em que o total de apreensões mais caiu. Usado tanto em confrontos entre facções que aterrorizam a população quanto para realizar violentos assaltos, o armamento de guerra teve a saída das ruas reduzida praticamente pela metade, despencando de 550 para 284 apreensões.

A marca negativa também se deu no recolhimento de munição, com uma queda ainda mais acentuada diante do ano anterior. Em 2020, foram 109.380 ocorrências do gênero no Rio, mais uma vez o menor índice já auferido pelo ISP — nesse caso, a série começou em 2014. O número é 32,9% mais baixo do que as 163.089 unidades de munição retiradas das mãos de criminosos pela polícia em 2019. A redução recorde também ocorreu nas apreensões de simulacros de arma, que foram de 1.292 para 933, ou menos 27,8%.

Ainda que não tenham atingido o nível mais baixo da série histórica, todos os outros tipos de armamento que constam no balanço do ISP também tiveram desaceleração no total de apreensões entre 2019 e 2020. A diminuição foi de 26,9% nos artefatos explosivos, como granadas e bombas caseiras (de 1.651 para 1.207); e de 5,8% nas armas brancas, como facas e tesouras (de 1.256 para 1.183).

No recorte por áreas de delegacia, o topo da lista de apreensões de armas de fogo soa inesperado. Bairro mais populoso de Campos, no Norte do RJ, Guarus, atendido pela 146ª DP, computou 199 registros e desbancou a 54ª DP (Belford Roxo), na Baixada Fluminense, tida como a região mais violenta do estado.

Em outubro, uma única operação no Parque Santa Helena, em Guarus, contou com mais de 200 agentes e resultou na prisão de 37 suspeitos de tráfico, bem como na apreensão de três armas. Outras ocorrências, porém, foram bem mais prosaicas: dez dias depois, não muito longe dali, PMs encontraram dois revólveres escondidos em uma igreja na comunidade Sapo II.

Especialistas citam pandemia e STF

Especialistas ouvidos pelo EXTRA citam dois motivos principais para a queda acentuada na apreensão de armas. O primeiro deles é a própria pandemia da Covid-19, decretada em março, que impactou outros indicadores de segurança pública, como a redução em vários tipos de roubo.

— Ao limitar movimentos, a pandemia gera, naturalmente, uma redução em diversos índices. E aí, da mesma maneira que o governo não pode reclamar para si os efeitos da redução na violência, devemos analisar com o cuidado a queda nas apreensões, sem colocar só na conta do Estado — afirma o sociólogo Ignacio Cano, professor da Uerj e membro do Laboratório de Análise da Violência: — Tivemos um ano totalmente atípico. Só após a vacinação, e da volta à vida normal, poderemos avaliar com precisão o cenário.

Já Paulo Storani, antropólogo e ex-capitão do Bope, acredita que uma decisão do STF, de junho, foi determinante para a queda nas apreensões. Na ocasião, a Corte impôs diversas restrições para operações policiais em comunidades do Rio durante a pandemia.

— O crime segue nesses locais. O que deixou de haver foi o confronto — diz Storani.

O QUE DIZEM A PM E A POLÍCIA CIVIL

Por nota, a Polícia Militar creditou a queda nas apreensões “ao período atípico da pandemia”. Segundo a corporação, “houve uma retração acentuada da movimentação de criminosos e das guerras entre facções rivais por conquista de territórios”.

Ainda de acordo com a PM, o número de armas recuperadas pela tropa voltou a subir entre o fim de 2020 e o início deste ano. Só em janeiro, policiais militares apreenderam 42 fuzis, número 75% maior que o do mesmo mês no ano passado.

Já a Polícia Civil afirmou que “o número de apreensões de armas é decorrente da diminuição da quantidade de operações no início da pandemia, principalmente em comunidades, atendendo a decisões judiciais”. O órgão conclui informando que a atual gestão “espera aumentar o número de armas apreendidas”.