Apreensão de fuzis cresceu 20 vezes na região da Grande Niterói na última década

Leonardo Sodré
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NITERÓI — No ranking de apreensões de armas feito pelo Instituto de Segurança Pública (ISP), que contabilizou mais de R$ 23 milhões em prejuízo para as quadrilhas no estado no ano passado, Niterói ficou em quinto lugar. Um estudo inédito divulgado pelo órgão na última segunda-feira mostrou que uma arma foi apreendida a cada hora no estado na última década, período em que o poder bélico dos criminosos na região da Grande Niterói, que inclui São Gonçalo e Maricá, mudou de patamar: a quantidade de fuzis apreendidos cresceu 20 vezes.

Na contramão do índice geral de apreensão de armas no estado, que teve redução de 6,5% de 2016 a 2019, os números na Grande Niterói cresceram 8,5% no período. A quantidade de fuzis, que chegou a corresponder a apenas 0,4% do total das armas apreendidas na região de Niterói há dez anos, representou 3,1% do que foi retirado de circulação pela polícia no ano passado.

“Vulgarização”

Antropólogo e ex-capitão do Batalhão de Operações Especiais (Bope), Paulo Storani diz que os números mostram uma “vulgarização” do uso de fuzis pelas quadrilhas que atuam na região.

— O criminoso quer um fuzil pela sua capacidade de coação e enfrentamento, quer se equivaler ao equipamento que a polícia tem. Na época da instalação das UPPs (de 2008 a 2014), muito desse armamento que era usado nas comunidades ocupadas não ficou parado. O criminoso vendeu, alugou ou empenhou essas armas em disputas por território com outra facção. Nesse contexto, o retrato de Niterói e São Gonçalo é o retrato do Rio de Janeiro como um todo — ressalta.

De fora do estudo, os números deste ano apontam para tendência de queda na apreensão de armas em todo o estado. Desde junho, a polícia está proibida de realizar operações em favelas no Rio de Janeiro durante a pandemia, por decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), o que pode ter impactado nos números. Segundo o ISP, de janeiro a novembro foram apreendidas 5.919 armas em todo estado, sendo 549 na Grande Niterói, das quais 31 eram fuzis. Em todo o ano passado no estado, foram capturadas pelas forças de segurança 8.423 armas, 1.011 delas em Niterói, onde foram apreendidos 63 fuzis.

Apesar do crescimento do uso de fuzis pelos bandidos nos últimos anos, revólveres e pistolas ainda são os armamentos mais usados. Na região da Grande Niterói, foram apreendidos no ano passado 610 pistolas e 283 revólveres, o que representa 88% do total confiscado.

Para o sociólogo Ignácio Cano, professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), a política armamentista do governo federal contribui para o crescimento do número de armas em circulação.

— Na medida em que o atual governo está fomentando a difusão de armas entre a população, supostamente para que ela se defenda, e sendo esse mercado muito poroso, essas armas vão acabar entrando para o crime também, como a gente costuma ver. Então, no futuro haverá mais armas em circulação e disponíveis para os criminosos também — prevê.

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