Aprendendo a viver indo do céu ao inferno - a história de Fernando Fernandes

 

O que leva uma pessoa a realmente entender o valor das pequenas coisas, daquelas que normalmente não damos atenção? No caso de Fernando Fernandes, um paulistano de 34 anos, a lição veio com um drama pessoal, que ocorreu abruptamente num momento em que sua vida era uma confortável sequência de prazeres e celebrações.

Desde o fim da adolescência, Fernando levava a vida que é o sonho da maioria dos jovens. Bem nascido, bonito e dono de um porte atlético delineado com a prática de esportes – vários deles, Fernando viajou para a Califórnia para aperfeiçoar o inglês em 2000. Durante a experiência que já era em si agradável, ele foi notado por um caça-talentos e acabou nas passarelas e diante das lentes, fotografando e desfilando para ícones da moda internacional, como Calvin Klein e Abercrombie & Fitch.

De volta ao Brasil, em 2002, então com 21 anos, uma vez mais foi percebido por sua beleza e postura. O reality show mais famoso da TV brasileira, o ‘Big Brother Brasil’, da TV Globo, então o convidou para participar da segunda temporada do programa. Fernando não venceu a edição – foi eliminado na terceira semana – mas adicionou ao assédio que recebia normalmente, uma fama de dimensão nacional. A vida continuava a sorrir e seu dia-a-dia era uma coleção de divertimentos.

Segundo ele próprio, a fama global veio com uma enxurrada de convites e oportunidades. “Só queriam saber quem eu estava namorando, o que eu estava fazendo e eu ficava agressivo, não sabia administrar”, disse em entrevista no ano passado. Estudou teatro e chegou a fazer três peças, mas não se encontrou. A projeção do BBB criara uma vida “fútil”, com a qual ele não se satisfazia.

A dedicação ao esporte voltou a ser uma alternativa e o modelo se atirou de cabeça, entremeando as aulas de faculdade de educação física, com boxe e suas sessões como modelo. Tudo novamente de vento em popa. Uma participação em uma campanha para a Dolce & Gabbana multiplicou a quantidade de convites de trabalho. 2010 seria o ano em que sua carreira de modelo iria para um novo patamar, quando ele iria morar na Europa. Só que essa mudança jamais chegaria.

Em julho de 2009, Fernando sofreu um grave acidente de carro. O despertar no hospital trouxe um pesadelo no lugar da vida de sonho. O modelo que tinha tudo, faturava alto e era assediado sistematicamente estava condenado à uma cadeira de rodas. “Fiquei aterrorizado em ser um gigante da cintura para cima e uma criança frágil da cintura para baixo”, contou.

A depressão bateu forte, mas foi ali, quando estava em seu momento mais escuro, que Fernando descobriu forças que ele mesmo não conhecia. Mesmo deprimido, Fernando se arrastava da cama aos aparelhos de musculação e se apoiou numa velha paixão – o esporte – para retomar a própria vida. “Eu não era forte mentalmente antes do acidente. Depois dele, quando o corpo fraquejava, a mente me levava adiante”.

Fernando não perdeu tempo com pena de si mesmo. Três meses depois do acidente, decidiu que participaria da tradicional corrida de São Silvestre daquele mesmo ano, em São Paulo. Outros três meses de treinamento o colocaram na rua e completar a prova fechou o ciclo de sua recuperação psicológica.

Mas ele queria mais. Na canoagem, encontrou uma modalidade na qual sua lesão tinha menos impacto. E a ela, se dedicou. Virou um profissional na modalidade e se dedicou mais, e mais, e mais. Como canoísta, Fernando se tornou um prodígio e o fim da carreira de modelo tornou-se irrelevante diante da nova carreira como atleta. Ele criou uma ONG para ajudar crianças com necessidades especiais – como as dele – e suas famílias. Ele respondeu à tragédia com uma entrega fenomenal – e a venceu.

O esforço não trouxe só resultados em sua vida pessoal. Também vieram os títulos. Fernando é um devorador de troféus. Ele é tetracampeão brasileiro, bicampeão sul-americano, tricampeão panamericano e mundial na modalidade. Basta? Não. “Quero ganhar o ouro na paraolimpíada do Rio e essa vitória não será só para minha satisfação”, afirma. Ele quer que o ouro ajude a sua ONG a transformar a vida de cada vez mais pessoas.  O último desafio continua sendo o próximo. Superação é uma condição mental e Fernando é a prova viva dessa entrega. 

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