'Fiz muita coisa errada', disse diretor Peter Bogdanovich a jornalistas um mês antes da morte

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Quando a Geração 70 entrou em Hollywood para mudar tudo, seus líderes eram forças furiosas. Martin Scorsese e Francis Ford Coppola eram os italianos violentos, David Cronenberg era o sinistro, Robert Altman era o rebelde, George Lucas e Steven Spielberg eram os ambiciosos. Peter Bogdanovich era o professor.

Com seus óculos severos e um lenço sempre no pescoço, Bogdanovich parecia um mestre de outras décadas, a voz pausada e grave, a veneração pelos clássicos do cinema, a constante pesquisa. Quando, depois de anos como crítico e jornalista cobrindo cinema, decidiu passar para o outro lado, seus filmes ecoavam um tempo que já não mais existia.

Peter Bogdanovich faleceu de causas naturais ao nascer do sol de quinta feira, dia 6 de janeiro, em sua casa em Los Angeles. Tinha 82 anos. Menos de um mês antes, na primeira semana de dezembro, se dispôs a conversar com jornalistas — com prazer, porque “nunca deixei de ser jornalista”, ele disse.

— Não era necessariamente um filme para pesquisadores. É um bom filme, sem se prender a uma época, e acho que segurou bem os seus 50 anos de existência — disse Bogdanovich via Zoom, de terno completo e lenço no pescoço, conversando sobre sua trajetória e a longa vida de sua obra-prima, "A última sessão de cinema" (1971). — Não sei explicar o que ele tinha. Sempre pensei nele em preto e branco. Deve ser por isso que fique fora do tempo, para sempre.

Bogdanovich nasceu dia 30 de julho de 1939 em Kingston, Nova York, filho de imigrantes – sua mãe, austríaca e judia, seu pai um pintor da Sérvia. Apaixonado por cinema desde menino, Bogdanovich pensou primeiro em ser ator, e estudou interpretação no famoso estúdio de Stella Adler. Aos 17 anos ele já participava do festival de peças de Shakespeare em Stratford, Connnecticut, e, a seguir, no popular festival de Shakespeare de Nova York. Ao mesmo tempo, ia ao cinema, em suas palavras “compulsivamente”.

— Eu tinha uma coluna no jornal da minha escola onde eu resenhava filmes e peças— Bogdanovich contou. — Quando me formei comecei a escrever artigos e resenhas na [revista] Esquire. Tive a oportunidade de entrevistar realizadores que eu adorava, como Orson Welles, Alfred Hitchcock, Howard Hawks. Fiz livros dessas entrevistas. E um dia dirigi um filme.

Sucesso e escândalo em Hollywood

Não foi apenas “dirigi um filme”. Em 1964, aos 25 anos, Bogdanovich mudou-se para Los Angeles e, pouco depois, começou a trabalhar como diretor de segunda unidade em produções do mestre de filmes B e patrono de aspirantes a realizador Roger Corman.

— Eu aprendi muito — disse Bogdanovich. — Sempre se aprende com Roger. Você aprende a criar soluções.

Sete anos depois, Bogdanovich dava o grande passo que lançaria sua carreira de sucesso e prêmios (entre eles, dois Oscars e duas indicações para os Golden Globes).

— Eu fiz tudo, escrevi, produzi, dirigi — ele diz, falando de "A última sessão de cinema". — Foi uma produção intensa, complicada. Eu cheguei no Texas [onde o filme foi rodado] e saí de lá como outra pessoa. [Pausa.] Eu estava loucamente apaixonado pela Cybil Shepherd mas não deu certo. Foi complicado mesmo.”

Não seria a única complicação. Em 1980, depois do divórcio de sua primeira esposa, Polly Platt, e do “caso complicado” com Cybil Shepherd, Bogdanovich se apaixonou pela atriz e modelo Dorothy Stratten, estrela do seu filme "Muito riso e muita alegria" (1981). O caso terminou em crime, com Dorothy sendo assassinada pelo marido, que se matou no ato.

Oito anos depois ele se casaria com Louise Stratten, irmã de Dorothy, 29 anos mais jovem que Bogdanivch. Antes, ele lançou um livro de memórias sobre o seu caso com Dorothy e a tragédia do crime.

O impacto do caso paralisou sua carreira durante um bom tempo. A primeira safra – "A última sessão de cinema" (1971), "Essa pequena é uma parada" (1972) e "Lua de papel" (1973), principalmente – havia colocado seu nome no alto. Com filmes recebidos sem muito entusiasmo – "Daisy Miller" (1974), "Amor, eterno amor" (1975), "No mundo do cinema" (1976) e "O tatuado" (1979) – e o caso Stratten, voltou ao seu lado de escritor e pesquisador, em primeiro lugar, e, as poucos, voltando a dirigir, na televisão.

— Eu fiz muita coisa errada — ele resumiu, quando perguntado sobre os tempos difíceis.

Nos últimos anos, além de colaborar com o canal Turner Classic Movies e produzir os filmes de sua filha, Antonia Bogdanovich, Peter retomou seu trabalho como ator. Foi o analista da analista Melfi em "Famíia Soprano", a voz do analista de Bart Simpson em "Os Simpsons", o DJ de "Kill Bill" e fez pontas em várias utras séries, inclsuive "How I met your mother".

E continuou indo ao cinema.

— Tem muita gente fazendo filmes excelentes — ele disse. — Meu favoritos são Wes Anderson, Noah Baumbach e Greta Gerwig, mas com certeza tem ainda mais.

Tinha uma “grande tela” em casa (uma TV de última geração, na verdade. “Eles estão fazendo mini-cinemas para nossas casas”) mas não perdia uma ida ao cinema.

— Sim, é possível ver um filme em casa, mas não estar num lugar comunal, diante de uma tela gigantesca, compartilhando a experiência com outras pessoas é uma perda imensa. Tenho pena de quem não sabe disso.

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