Oposição síria vincula participação em Astana a cumprimento da trégua

Genebra, 29 mar (EFE).- A oposição política e armada síria advertiu nesta quarta-feira que caso as violações ao cessar-fogo no país não parem, a participação na reunião de Astana-4, prevista para maio, será repensada.

O anúncio foi feito hoje em entrevista coletiva por Salem Al Meslet, um dos porta-vozes da Comissão Suprema para as Negociações (CSN), que agrupa 50% da oposição política síria e os principais grupos armados.

"O que acontece no território não é o que foi acordado em Astana. A menos que haja uma mudança de estratégia lá e parem os combates e os bombardeios nos arredores de Damasco, os defensores da liberdade irão pensar se participam de Astana".

A capital cazaque foi sede de três encontros para discutiu como manter e aprofundar o cessar-fogo na Síria patrocinado pela Rússia, pelo Irã e pela Turquia. Na última reunião a maioria de chefes militares rebeldes já não participou, descontente com a intensificação dos combates, que nas últimas semanas não só não pararam, como aumentaram.

A CSN está em Genebra participando da quinta rodada de negociações de paz apoiada pela ONU. Por conta dela, o vice-ministro das Relações Exteriores da Rússia, Gennady Gatilov, que se incorporou ao processo, se reuniu com a CSN hoje.

O porta-voz da Comissão disse que Gatilov ouviu a preocupação sobre a intensificação dos combates e que advertiram da possibilidade de boicotar de novo o encontro em Astana, que inicialmente está previsto para a primeira semana de maio.

"Este é um teste para que os países fiadores do processo (Rússia, Irã e Turquia) demonstrem seu compromisso", disse o dirigente opositor.

Meslet ainda se queixou ao responsável russo da presença de milícias iranianas na Síria. Milícias xiitas iranianas, afegãs e libanesas apoiam o regime do presidente sírio, Bashar al Assad, em sua contraofensiva rumo aos rebeldes.

O porta-voz da CSN indicou que a reunião com Gatilov foi positiva e eles acertaram repeti-la em outras ocasiões.

Por outro lado, o chefe negociador da CSN, Nasser Hariri, explicou, na mesma entrevista coletiva, que hoje tinham se reunido com o mediador do diálogo de paz, Staffan de Mistura, e que tinham debatido o processo eleitoral uma vez conseguido o silêncio das armas. Eleições livres nas quais participem todos os sírios, incluindo a diáspora, são um dos quatro eixos da agenda de trabalho que acordaram as partes na última rodada negociadora.

"Discutimos com o mediador como fazer para que o governo de transição tome as medidas necessárias para realizar eleições livres e transparentes, seja para aprovar a nova Constituição ou para escolher aos representantes locais, provinciais ou presidenciais", afirmou Hariri.

Ele assumiu que era a primeira vez este assunto era tratado e que, dada a complexidade dele, deveria ser discutido em futuros encontros.

Os outros três eixos são: a transição política, a redação de uma nova Constituição e o terrorismo, este último acrescentado a pedido do regime.

Hariri explicou que o grupo entregou ao mediador um documento descrevendo a desesperada situação dos deslocados internos do campo de Rukban, na fronteira da Síria com a Jordânia, onde estima-se que vivam 70 mil pessoas em péssimas condições. EFE