Apresentador do ‘Trace trends’, Alberto Pereira Jr. fala da importância de ter voz na TV: ‘Sou uma bicha preta positiva’

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Formado em Jornalismo, Alberto Pereira Jr., de 34 anos, foi repórter e editor em veículos impressos antes de decidir mergulhar no audiovisual. Após assinar o roteiro de diversos trabalhos, ele foi convidado a integrar o time do “Trace trends”, programa sobre o universo da cultura afrourbana no Brasil e no mundo, que passou a ser exibido neste ano pelo Multishow, toda sexta-feira, às 17h, e também está disponível no Globoplay. Multitalentoso, esse paulistano logo virou locutor, diretor e apresentador da atração, que conta também com Xan Ravelli, Ad Júnior e com os ex-BBBs Babu Santana e João Luiz. Negro, gay e soropositivo, Alberto levanta a bandeira da representatividade e se define como ‘‘artista social’’. Nesta entrevista, ele fala com otimismo sobre a possibilidade de amplificar as vozes das minorias na TV. Confira:

Início no Jornalismo

“Comecei num jornal popular de São Paulo. Lá, entendi que precisamos comunicar diretamente com o público, abrir o foco, sair da bolha e buscar histórias que sejam relevantes para todos. O Jornalismo foi uma grande escola para mim”.

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Chegada ao ‘Trace trends’

“Eu sou apresentador, roteirista e diretor, mas não faço nada sozinho. Nosso time está ligado no que é ser preto no Brasil e o que é ser brasileiro. Não falamos só de negritude, mas de brasilidade em geral. Traçamos relações sobre as várias influências africanas na nossa cultura. O funk, por exemplo, bebe dessa matriz, mas não é só cantado por negros. Tratamos de empreendedorismo, arte, música, ciência. Nossa missão é trazer a presença preta, indígena, LGBT e feminina para a TV”.

A cara do programa

“Já colocamos os corpos vulneráveis na frente da tela, então não precisamos abordar racismo, LGBTfobia e misoginia o tempo todo. Buscamos trazer uma narrativa positiva sobre eles, que têm diversas profissões, mas que, infelizmente, na maior parte das vezes, são acionados apenas para falar de experiências negativas, como dores ou preconceito. No ‘Trace’, não! Queremos mostrar que essas pessoas que sofrem com o racismo estrutural também podem tratar de outros assuntos. Eu me imponho a missão de ser o mais plural possível. No programa, sempre vai ter pelo menos um LGBT, uma mulher, alguém do Norte ou do Nordeste para sair do eixo Rio-São Paulo, queainda domina a mídia”.

Sonhos

‘‘Sou otimista, e meu sonho é ajudar nas transformações sociais. Mudanças já aconteceram e precisam acontecer mais. (A mudança) é um percurso que tem curvas, vales, interrupções, mas nunca nada se perde, mesmo que pareça difícil, já que vivemos num momento de mais conservadorismo. Nós não damos voz a ninguém porque todo mundo tem voz. Mas vamos amplificá-la, fazer com que essas pessoas, que não são consideradas, possam ter o direito de se comunicar, se posicionar e se colocar no mundo junto com suas potências e dores”.

Recorte familiar

“Sou preto, de classe média, da Zona Leste, periferia de São Paulo, mas sempre tive uma situação financeira estável. Meu recorte familiar já foge do que é esperado para um corpo negro, então isso traz obrigações de me manter nesse espaço de disputa, a que muitos não chegam”.

Preconceito

“Sou negro, gay, vivo com HIV há 12 anos e me defino como artista social. Sou uma figura de representatividade e tenho espaço para falar e ser ouvido. Então, me sinto na obrigação de falar sobre isso abertamente. Não estou dizendo que todo mundo precisa declarar sua sorologia ou sua orientação sexual, mas para mim faz sentido, porque quero me conectar diretamente com o outro. Sou uma bicha preta, positiva e apresento um programa de TV que está na maior plataforma audiovisual brasileira. Assim como também temos tantas figuras e corpos marginalizados com sucesso e atenção, como Liniker, Linn da Quebrada, Jup do Bairro, que estão bombando. Apesar do momento em que estamos no Brasil, todas essas pessoas acontecem, e nós vamos seguindo”.

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