Apuração nos EUA dura quatro dias e vai de ilusão vermelha para vitória azul

BRUNO BENEVIDES
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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Em quatro dias, diz a Bíblia, Deus separou o dia da noite, fez o céu , o sol e as estrelas e criou mar e terra. Pois os Estados Unidos demoraram o mesmo tempo apenas para definir quem será seu novo presidente. Foi com emoção que Joe Biden foi escolhido o 46º líder da nação mais poderosa do mundo. Pesquisas erraram de novo, uma ilusão vermelha inicial se formou no início da apuração e foi seguida de uma longa espera pela contagem dos votos, até ocorrer a vitória azul. A corrida entre o democrata e Donald Trump terminou apenas neste sábado (7), quando as projeções da imprensa americana deram vitória ao ex-vice de Barack Obama na Pensilvânia. Em uma disputa marcada por tantas surpresas, foi um final um tanto previsível. As projeções apontavam havia meses uma chance em três de a eleição ser decidida na Pensilvânia -probabilidade maior do que em qualquer outro estado. Com o resultado ali, Biden finalmente conseguiu ultrapassar a marca de 270 votos no Colégio Eleitoral, número necessário para ser eleito presidente --ele tem no momento 273 votos, contra 214 do rival. No sistema eleitoral americano, a votação que define o presidente é, na verdade, um conjunto de 51 pleitos que ocorrem de maneira simultânea, um para cada estado mais o do Distrito de Columbia, onde fica a capital, Washington. Isso porque cada estado tem número de votos no Colégio Eleitoral proporcional à população. A Califórnia, com 39,51 milhões de habitantes, por exemplo, tem direito a 55 representantes. A Dakota do Sul, com 884,6 mil, a 3. O vencedor em um estado leva todos os votos referentes a ele, com exceção de Maine e Nebraska, que dividem os delegados de maneira um pouco mais proporcional. No fim do processo, é eleito quem conquistar mais da metade dos votos no Colégio Eleitoral -270 dos 538 votos possíveis. Assim, a senha para vencer é conquistar os estados onde a disputa é mais apertada. Na terça, último dia para os americanos depositarem os votos, as pesquisas não apontavam um favorito em 13 deles. No resto do país, diga-se, não houve nenhuma surpresa durante toda a apuração. Biden venceu nos 17 estados onde era amplo favorito, enquanto Trump levou 19 dos 20 locais em que estava na mesma situação. A exceção é o Alasca, que está com sua contagem atrasada -o republicano, porém, tem quase 30 pontos percentuais de vantagem ali e dificilmente não sairá vencedor na região. Com projeções que apontavam 90% de chances de vitória a Biden, seus apoiadores sonhavam com uma resolução rápida da disputa. Logo que a apuração começou, porém, essa esperança esvaiu-se quando a contagem indicou triunfo do republicano na Flórida, ainda na noite de terça. O resultado contrariou as pesquisas, que apontavam o democrata na liderança. Os levantamentos, aliás, novamente subestimaram o voto no republicano, que teve mais apoio do que o esperado entre latinos no Sul e no geral no Meio-Oeste -região crucial para a vitória há quatro anos. A partir da vitória na Flórida, o que se viu foi o presidente inicialmente vencendo uma série de estados-chave e, assim, mantendo suas chances de ser reeleito. Foi um feito e tanto para alguém que chegou ao último dia de disputa com 10% de possibilidades de vitória. Trump também pulou na frente em outras regiões. Em parte, isso pode ser explicado pelo fato de que muitos estados contam o voto presencial -que favorece o republicano- antes dos votos antecipados, que incluem as cédulas enviadas pelo correio e são, em sua maioria, de eleitores democratas. Diferentemente do que o presidente insinuou algumas vezes, só foi possível votar até a terça-feira da eleição, seja de maneira presencial ou a distância. Alguns estados, porém, aceitam que o voto por correio seja entregue até a próxima semana, desde que ele tenha sido enviado até 3 de novembro. Ao vencer no Texas, em Iowa e em Ohio durante a madrugada, Trump fez muitos apoiadores de Biden temerem uma repetição de 2016, quando o republicano foi eleito ao conquistar a maior parte dos estados-chave, contrariando as pesquisas. Muitas pessoas que foram -ou, ao menos, tentaram- dormir naquele momento, no entanto, acordaram na quarta-feira (4) com um cenário bastante diferente. A vantagem que o republicano tinha inicialmente construído nos estados que faltavam no Cinturão da Ferrugem -Wisconsin, Michigan e Pensilvânia- derretiam conforme aumentava a contabilização de votos antecipados. De quebra, o democrata confirmou seu leve favoritismo em dois estados, Minnesota e New Hampshire. Na sequência, assumiu a liderança e depois teve a vitória declarada em Michigan e Wisconsin. A disputa chegou a quinta-feira (5) com cinco estados de fato ainda em disputa, com Trump favorito na Carolina do Norte e quatro com margens muito próximas: Nevada, Pensilvânia, Geórgia e Arizona --este último, palco de idas e vindas que serviram para ilustrar todo o drama da apuração. Os Estados Unidos não possuem um órgão eleitoral como no Brasil, que organiza, apura e divulga o resultado das eleições. Lá, cada estado é responsável pelas votações em seu território, e é a imprensa que agrega os resultados e os soma para que se saiba quem terá o maior número de delegados. Assim, para declarar o vencedor, os veículos costumam analisar como está a apuração, que regiões do estado ainda precisam ser contabilizadas e as pesquisas de intenção de voto. No Arizona, porém, houve divisão. Uma série de veículos -incluindo a agência Associated Press, o canal de TV Fox News e o jornal The Wall Street Journal- declarou a vitória de Biden no estado ainda na quarta, enquanto o jornal New York Times e a rede de TV CNN seguem classificando a disputa como indefinida. Até a manhã de quinta, a AFP ainda contabilizava o estado para Biden. Como a vantagem caiu durante a noite anterior, a empresa recuou e voltou a classificar a disputa como indefinida. Isso porque a margem do democrata sobre o republicano despencou durante a madrugada, dando a esperança de uma virada para Trump. Com Nevada e Carolina do Norte com atraso em suas apurações, as atenções de Biden se viravam para a Geórgia e a Pensilvânia, onde a situação era a oposta do Arizona, com a vantagem do presidente caindo a cada atualização da apuração. Foi assim ao longo de toda a quinta-feira. Em ambos, a maior parte dos votos que ainda seriam contabilizados era de grandes centros urbanos -respectivamente Filadélfia e Atlanta-, que apoiam majoritariamente Biden. Mas ninguém se arriscava a prever se e quando a virada aconteceria. Ela veio ainda na sexta (6) em ambos os estados, mas isso não era suficiente para ele garantir a eleição. Voto a voto, democratas, republicanos e o resto do mundo faziam contas. Até que, no começo da tarde deste sábado, veio o esperado anúncio: Biden estava na frente na Pensilvânia. E foi assim, ao vencer o estado onde nasceu, que ele derrotou Trump e foi eleito presidente dos Estados Unidos.