Aquecimento global provoca onda recorde de calor e seca em Espanha e Portugal

Um calor extremo, que chegará à Europa sempre antes do verão, com mais intensidade e maior frequência devido ao aquecimento global. É a explicação científica que a Organização Meteorológica Mundial (OMM) deu em Genebra para algo que as populações de Portugal e Espanha têm sentido na pele nas últimas semanas. Os dois países da Península Ibérica foram atingidos pela onda de calor, que trouxe os meses mais quentes em décadas e causou incêndios e secas.

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Na semana do feriado de Corpus Christi, quase dez dias antes do verão europeu começar, as temperaturas em Madri ultrapassaram os 40º. Mas a Agência Estatal de Meteorologia (Aemet) registrou temperaturas mais elevadas em outras regiões do país. Funcionário de uma tradicional taberna madrilenha no Bairro das Letras, o equatoriano que se identificou apenas como Andrés disse nunca ter sentido tanto calor em seus 30 anos de Espanha.

— Eu não lembro, isto para mim é inédito — disse Andrés, enquanto tirava da torneira de cerveja uma “caña” atrás da outra no bar lotado de locais e turistas.

O equatoriano estava certo. Foi a onda de calor que chegou mais cedo desde 1981, de acordo com a Aemet, além de ser a mais intensa em 20 anos. Os frequentadores da taberna molhavam os pés e as nucas na fonte de água pública localizada na calçada, uma cena que se repetia por toda a cidade, como em frente ao Museu do Prado, onde turistas que torravam na fila aproveitavam para encher garrafas de água.

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Para refrescar uma pequena multidão, o Mercado São Miguel, no centro histórico de Madri, ligava regularmente os aspersores de água instalados sobre os bares. O chuvisco artificial fez a festa dos turistas. Restaurantes fora dali, e sem a mesma estrutura, levaram aparelhos de ar-condicionado portáteis para o meio do salão numa tentativa de amenizar o sofrimento.

Como uma parte dos prédios do centro da capital espanhola são antigos como os de Portugal, e sem ar-condicionado, a responsável por um hostel instalado num desses imóveis pediu desculpas aos hóspedes por ter sido pega de surpresa e não ter um ventilador para emprestar.

Marta Rivera de la Cruz também pediu desculpas a todos os madrilenhos. A conselheira da pasta de Cultura e Turismo do governo da Comunidade de Madri tentou explicar na Assembleia local por que as piscinas públicas estavam fechadas no feriado, em plena onda de calor em uma cidade sem praia. Não funcionou. Teve que abrir três piscinas às pressas no sábado, antecipando em uma semana a abertura prevista.

— Quero pedir desculpas aos cidadãos prejudicados. Me comprometo que não voltará a acontecer nada parecido no próximo ano — disse Rivera.

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Enquanto alunos eram liberados mais cedo em algumas cidades espanholas devido ao calor, imagens de incêndios em diferentes regiões eram transmitidas ao vivo pelas redes de TV. As altas temperaturas, combinadas com rajadas de vento, alastraram os focos. Em Sierra de Culebra, Noroeste espanhol, uma área superior a 25 mil hectares havia sido consumida no fim de semana, forçando a evacuação de dez vilarejos com mais de 200 pessoas. O mesmo aconteceu em Navarra, que esvaziou dez vilarejos. Também houve incêndios na Catalunha.

As imagens dos incêndios no país vizinho fizeram os portugueses reviverem o drama de Pedrógão Grande, onde fica a área que ardeu em 17 de junho de 2017, matando 66 pessoas. Na última segunda-feira, uma retirada da população foi simulada.

Dessa vez, Portugal foi atingido pela onda de calor ainda mais cedo do que a Espanha. Confirmando a estimativa de antecipação das temperaturas extremas no pré-verão europeu, feita pela Organização Meteorológica Mundial, maio foi o mês mais quente no país em 92 anos, segundo o Instituto Português do Mar e da Atmosfera.

Naquele mês, foi registrada uma redução de grande quantidade de água no solo em todo o território português. O efeito é sentido agora, e o IPMA afirma ser a pior seca em 91 anos. A geografia da seca está dividida assim: 66% do país em condição extrema e 34% em situação severa. O cenário obrigou o ministro do Ambiente, Duarte Cordeiro, a ser direto.

— Temos de nos habituar a viver com menos água — disse Cordeiro em entrevista coletiva, após reunião da Comissão Permanente de Prevenção, Monitoramento e Acompanhamento dos Efeitos da Seca.

Sete barragens de Portugal entraram em nível de contingência, e o governo português iniciou uma campanha que apela para o uso consciente da água, porque nem a previsão de chuva para os próximos dias reverteria a situação em curto prazo. A reserva potável para a população portuguesa poderia durar dois anos.

Para o consumo animal, os criadores de gado estão reticentes. Devido à seca e também à guerra causada pela invasão russa da Ucrânia, eles admitem que o elevado custo de produção e a falta de alimento forcem ainda mais uma subida do preço final, já pressionado pela inflação.

A Espanha também enfrenta o mesmo problema em seu território. Por isso, Duarte Cordeiro revelou que uma reunião conjunta para tratar do agravamento da seca devido ao calor extremo acontecerá ainda este mês, em Madri.

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