'Aquilo que a sociedade não quer, a gente aproveita', diz morador de rua sobre 'caminhão de ossos' no Rio

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RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) - A desempregada Sheila Fernandes, 41, caminhou por uma hora e meia, na manhã desta quinta-feira (30), entre a região central e a zona sul do Rio de Janeiro. Por lá, sua missão era encontrar o caminhão que ficou conhecido por distribuir ossos e restos de carne recolhidos em supermercados da capital fluminense.

“Tudo está muito caro. Venho até aqui porque não tenho mais como comprar carne”, conta Sheila, acompanhada por sua filha.

O caminhão, para surpresa da desempregada, não apareceu durante a manhã. “É a nossa única maneira de comer carne no mês”, relata. ​

A distribuição de ossos e sobras na zona sul do Rio, em área entre os bairros Glória e Catete, ganhou repercussão nesta semana após reportagem do jornal Extra.

Com a crise econômica, que elevou desemprego e inflação, o caminhão virou a alternativa para quem tem fome e não tem dinheiro suficiente para comprar alimentos. A situação provocou repercussão nas redes sociais e no meio político.

A reportagem tentou contato com os responsáveis pelo veículo, mas não obteve retorno.

"Cozinho na panela de pressão, e tempero com alho e cebola. A carne vai soltando do osso", diz Sheyla. As refeições costumam ter ainda arroz e feijão e alimentam a desempregada e as outras oito pessoas de sua família, que vive em uma ocupação.

Sheila está sem emprego há cerca de dois anos. Sua última vaga foi em uma lavanderia. Mas, devido à crise, ela ressalta que aceitaria trabalhar em áreas diversas.

Enquanto não encontra emprego, os recursos do Bolsa Família ajudam a manter despesas básicas. “Estou buscando trabalho, correndo atrás, mas está muito difícil.”

O morador de rua Marcelo de Souza Lima, 48, também faz parte do grupo que busca ossos e sobras de carne para alimentação. Lima relata que começou a ir até o ponto de distribuição entre um ano e meio a dois anos atrás.

Segundo ele, era comum pessoas buscarem os ossos para dá-los a cachorros. Com a pandemia e o aumento da fome, as sobras passaram a ser mais usadas para alimentação das próprias pessoas, diz.

“O cachorro agora tem duas patas”, afirma o morador, que vende água de coco na praia. “Aquilo que a sociedade não quer, a gente aproveita”, acrescenta.

As sobras de carne também viraram alternativa para Joel Souza Costa, 54, nas últimas semanas. O morador de rua, que diz fazer bicos como pedreiro, lamenta a crise gerada pela Covid-19.

“Com uma pandemia dessa, a gente não está podendo jogar nada fora. Não seria digno jogar [as sobras de carne] fora”, afirma.

No estado do Rio, 32,2% da população vivia com algum nível de insegurança alimentar em 2018, antes da crise sanitária, conforme o centro de estudos FGV Social. O quadro era o mais delicado entre os estados do Sudeste e do Sul.

Com a pandemia, trabalhadores perderam renda, o que complicou a situação, ressalta o economista Marcelo Neri, diretor do FGV Social. Segundo ele, a melhora do setor de serviços, que tem grande peso na economia local, pode até ajudar nos próximos meses, embora o cenário seja “bem preocupante”.

Questionada sobre as ações para enfrentar a fome na pandemia, a Prefeitura do Rio afirmou que já repassou R$ 93 milhões por meio do Auxílio Carioca, atingindo cerca de 670 mil pessoas. O programa, anunciado em março de 2021, busca minimizar os efeitos da Covid-19 e contempla famílias em estado de vulnerabilidade social.

A prefeitura relata ainda que, entre outras ações, visita áreas pobres da cidade e oferece atendimentos técnicos, incluindo orientações trabalhistas e inscrições em cursos de qualificação profissional.

Segundo a prefeitura, que cita dados do Cadastro Único, o Rio tinha quase 310,5 mil famílias em situação de extrema pobreza (renda per capita de até R$ 89) e outras 58,5 mil em situação de pobreza (de R$ 89,01 a R$ 178) até agosto de 2021.

O desespero em busca de comida não é uma exclusividade carioca. Durante a crise sanitária, cidades como Cuiabá (MT) também registraram filas em busca de doações de restos de ossos de boi. Os resquícios de carne acabam virando prato principal na casa de quem sofre com dificuldades financeiras.

Nem o feijão com arroz escapou da alta da inflação e do desemprego na pandemia. A aceleração de preços e a renda em queda mudaram o cardápio dos brasileiros mais pobres, que se viram obrigados a optar por produtos mais baratos.

Moradores da periferia passaram a recorrer até a pé de frango contra a escassez de comida.

Em 2020, a fome atingiu 19 milhões de brasileiros, conforme dados do Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no Contexto da Pandemia da Covid-19 no Brasil, conduzido pela Rede Penssan (Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional). O levantamento foi divulgado em abril.

Em conjunto, desemprego e inflação reduzem o poder de compra da população, sobretudo entre os mais humildes.

Dados compilados pelo Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) ajudam a entender o cenário. Para as famílias com renda mais baixa, a inflação acumulada em 12 meses até agosto alcançou 10,63%, a maior marca entre as seis faixas de rendimento pesquisadas.

A taxa de desemprego no Brasil recuou para 13,7% no trimestre encerrado em julho, informou nesta quinta-feira (30) o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Apesar da melhora, o país ainda tem 14,1 milhões de pessoas em busca de algum tipo de trabalho.

No mundo, cerca de 118 milhões de pessoas começaram a passar fome em 2020, indicou relatório da FAO (Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura) publicado em julho.

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