Ar-condicionado desligado: passageiro leva uma hora e meia para fazer reclamação na prefeitura

O verão carioca mostra suas credenciais e quem precisa andar de ônibus na cidade do Rio sofre com o calor dentro dos coletivos. Após publicação de decreto em que o prefeito Eduardo Paes determina o corte de subsídio às operadoras das linhas de ônibus em caso de veículos multados por ar condicionado inoperante, passageiros reclamam da dificuldade de fazer denúncia ao serviço 1746, canal de reclamações do município.

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A página oficial da prefeitura do Rio divulgou, nesta terça-feira, um post intitulado "Tá sem ar? Não vou pagar", em que compartilhava o "cancelamento do pagamento de subsídio diário aos ônibus municipais que circularem com o ar-condicionado quebrado ou desligado". Além disso, informava a opção de denúncia pelo WhatsApp (21) 3460-1746.

Moradora de Madureira, na Zona Norte, a jovem aprendiz Jamile Rodrigues, de 21 anos, enfrenta o calor diariamente a bordo de um ônibus da linha 685 (Méier x Irajá) para conseguir chegar ao emprego, em Rocha Miranda. A equipe do GLOBO tentou registrar a denúncia de Jamile e levou uma hora e meia no procedimento.

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— Esse serviço poderia ser mais prático e fácil. Não tem como denunciar sempre porque as pessoas desistem no meio da denúncia. Faço esse trajeto todos os dias e o 685 nunca vem com ar — lamenta a jovem, que enumera o que conseguiu fazer durante todo o processo de abertura de chamado: — Já tomei café, cheguei no trabalho, atendi mais de dez clientes, bebi até minha terceira garrafa de água.

O procedimento, que começou às 9h34, contou com algumas etapas e foi preciso responder a alguns questionamentos, separadamente:

Opção "transporte"

Definir motivo da reclamação: "verificação de ar condicionado inoperante no ônibus"

Informar número da linha

Número de ordem do ônibus

Data e hora da ocorrência

Descrição da ocorrência

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Ao fim, às 11h01, após informar se desejaria realizar cadastro ou não, a resposta foi que, "assim que o pedido for registrado, o cidadão receberá uma mensagem com o protocolo e o prazo da solicitação". O protocolo foi enviado às 14h23.

Talvez por isso, outros passageiros optem por marcar os perfis de autoridades e de órgãos responsáveis nas redes sociais.

"Esse WhatsApp não funciona, então vou colocar aqui mesmo", escreveu uma usuária no Twitter, relatando o número da linha, a numeração do ônibus, além de data e horário da viagem.

Marcos Amado trabalha na Barra da Tijuca e, diariamente, embarca em um ônibus da linha 693 (Alvorada x Méier), onde sofre com o calor. Neste caso, com um agravante: as janelas, devido ao aparelho refrigerador instalado no veículo, são vedadas. Nesta terça-feira, ele optou por marcar os perfis oficiais do prefeito Eduardo Paes e da central de reclamações 1746, relatando o calor, além de superlotação e o balaústre solto.

— É um carro em que, ao entrar, escutamos o barulho do ar, mas fica só no barulho mesmo, porque ele não gela. Não tem janelas para abrir e, à medida que o ônibus enche, o calor aumenta. E ele enche bastante — narra Marcos, que segue fazendo denúncias ao serviço 1746, mesmo que ainda não tenha visto qualquer fiscalização da prefeitura no seu percurso. — O meu trajeto no 693 leva em média 40, 45 minutos, e são minutos sofríveis. A gente toma banho e se arruma para trabalhar, mas chega lá todo suado e amassado.

Segundo a Secretaria municipal de Transportes (SMTR), 320 multas foram aplicadas por falta de ar-condicionado nos ônibus na terça-feira; nesta quarta, foram mais 150. Nos últimos 12 meses, a SMTR aplicou 1.446 multas. Além disso, diz o órgão, "desde a criação do canal exclusivo para denúncias sobre ar-condicionado desligado na Central 1746, em novembro de 2022, a SMTR intensificou a fiscalização e a quantidade de multas já aumentou quase cinco vezes em relação ao restante do ano. Foram registrados 8,8 mil chamados sobre ônibus sem ar-condicionado desde o dia 04/11/22".

Já em relação aos subsídios, a SMTR informa que "o reajuste recente do subsídio pago aos consórcios está relacionado com a obrigatoriedade da continuidade do plano de incremento de frota e também com a instalação de sensores, até o final de julho, que permitirão que a SMTR monitore à distância a climatização dos ônibus".

O Rio Ônibus, sindicato que reúne as empresas de ônibus, divulgou a seguinte nota: "Desde a assinatura do acordo, em maio de 2022, os consórcios estão empenhados em cumprir todas as demandas da Prefeitura, priorizando a retomada de 66 linhas e ampliação de frota em mais de 300 ônibus já em operação. As empresas trabalham em força-tarefa para vencer as dificuldades de compra de peças e reparação dos aparelhos de ar-condicionado, a fim de atender à determinação da SMTR."

'Sensação de forno'

No início da manhã desta quarta-feira, o prefeito Eduardo Paes compartilhou em sua conta do Twitter um post em que uma das empresas de ônibus que operam na cidade, a Viação ideal, anunciava que os aparelhos de ar-condicionado estariam de volta a partir desta terça-feira, dia 17, depois de todos os veículos terem sido "submetidos a uma inspeção rigorosa, incluindo a limpeza e troca de filtros, para garantir o funcionamento em perfeitas condições".

Paes parabenizou a empresa "por cumprir com sua obrigação" e ainda completou: "Espero que seja de verdade e que o respeito às regras seja uma permanente daqui pra frente! Estamos de olho. Com certeza os outros concessionários seguirão o mesmo padrão! Né?"

A equipe do GLOBO esteve na Central do Brasil, principal ponto do Centro do Rio, no início da tarde desta quarta-feira e, nos primeiros 15 minutos no local, pôde constatar que entrar em um ônibus da Viação ideal com o aparelho ligado dependia de sorte. Entre os dez ônibus que passaram nesse período — em linhas que ligam o Centro a bairros da Ilha do Governador, como 321, 324, 325 326 e 329 — apenas três estavam com janelas fechadas e ar ligado.

Para passageiros de outras empresas, a volta para casa é uma caixinha de surpresas.

— Está muito calor dentro dos ônibus, não posso nem andar sem água dentro da bolsa. De manhã vim em um 335 (Cordovil-Tiradentes) sem ar. Pelo que vi dos ônibus que passaram do outro lado da Presidente Vargas, virá sem, novamente — especulou a servente Juliana Machado, que se surpreendeu quando o coletivo que aguardava veio com o ar ligado.

A mesma sorte não teve quem pegou o 335 seguinte, que chegou à parada da Central do Brasil com o aparelho de refrigeração desligado. Em outras linhas, também havia uma dúvida de se o ar estaria ligado ou não.

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A jovem aprendiz Larissa Baptista, de 18 anos, mora em Vigário Geral e está em seu primeiro emprego, no Centro do Rio. Ela conta que precisa acordar bem mais cedo do que deveria para viajar sentada e "não vir grudando de suor" com outros passageiros.

— Viajo na garupa da bicicleta do meu namorado por cerca de 10 minutos até o ponto final do 342 (Castelo-Jardim América), chego lá às 5h10. Meu horário no trabalho, no Centro, é só às 8h30. Se eu fosse pegar na porta da minha casa e viesse em pé, sairia só uma hora depois.

Larissa, que fez um gesto de "mais ou menos" ao embarcar no veículo, que estava com as janelas fechadas, conta que a rotina é com muito suor.

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— O vidro da janela é colado, mas o ar nem sempre gela. Hoje de manhã, ele ligava e desligava a todo o momento; tem dia que vem gente reclamando com o motorista. A sensação que se tem é de um forno do seu lado — explica, enquanto os termômetros da Presidente Vargas marcam 28ºC. — Aqui fora ainda tem um ventinho, lá dentro é sempre mais quente.

Já o eletricista Severino de Araújo, que também esperava a condução na Central, enumera outros problemas além do ar-condicionado:

— As empresas ludibriam a população e as pessoas vão vivendo, né? Os ônibus estão todos ferrados, sem cadeira, cheio de barata — lamenta ele, que aguardava um ônibus da linha 328 (Candelária-Bananal), que chegou ao ponto de ônibus ainda sem ar-condicionado e com uma fita verde para auxiliar na identificação da linha, já que o letreiro estava quase apagado.

A SMTR explica, sobre a conservação dos ônibus, que "ações de fiscalização para verificação do estado de conservação da frota nas ruas e garagens de ônibus fazem parte da rotina diária da rotina de trabalho" e que, em casos de irregularidades, "como a falta de limpeza e ausência do selo de desinsetização, o consórcio responsável é autuado, e os veículos, lacrados".

Em nota, a Central 1746 informou que "o tempo médio de atendimento via WhatsApp é de 8 minutos e está avaliando o tempo de atendimento do chamado mencionado”.