Em lockdown, Araraquara é prévia do que pode ocorrer no Brasil

Matheus Pichonelli
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Há uma semana Araraquara, no interior de SP, entrou em lockdown, com fechamento de lojas e restaurantes. Desde domingo (21) nem supermercados ou postos de gasolina podem abrir. Foto: Prefeitura Municipal de Araraquara
Há uma semana Araraquara, no interior de SP, entrou em lockdown, com fechamento de lojas e restaurantes. Desde domingo (21) nem supermercados ou postos de gasolina podem abrir. Foto: Prefeitura Municipal de Araraquara

São 6h11 enquanto escrevo.

Desde que acordei, cerca de uma hora atrás, o único som que vem da rua é o de uma moto que passou a mil. Ainda estava escuro.

Não faz um dia que entramos em lockdown total em Araraquara, cidade onde nasci e para onde viajei na última sexta-feira 20 por razões pessoais. A casa da minha sogra é a base de onde observo o mundo silenciar aos poucos. Às 12h de domingo, tudo parou —a não ser farmácias e hospitais.

Meus pais até outro dia mantinham abertas as portas da lavanderia onde trabalham. Agora não podem mais.

Supermercados, serviços de entrega e postos de gasolina estão fechados desde então. Se alguém tentar furar o bloqueio e ficar sem combustível corre o risco de voltar a pé —e tomar uma multa pesada se for flagrado andando por aí sem uma boa justificativa.

As medidas adotadas pelo prefeito da cidade, Edinho Silva (PT), acontecem após um surto de Covid-19 que levou à ocupação máxima dos hospitais da cidade. Por aqui já foi identificada a variante brasileira, encontrada em Manaus, do vírus. Até domingo, 171 mortes haviam sido confirmadas desde o início da pandemia. E a ocupação dos leitos só chegou a 98% porque caiu após as restrições de circulação adotadas ao longo da semana. Foi a primeira queda no índice em seis dias.

Para se ter uma ideia, em agosto, quando o Brasil chegou a 100 mil mortos por covid-19, Araraquara somava 30 óbitos em seis meses de quarentena. Fevereiro ainda não acabou e já morreram 55 conterrâneos. O último boletim confirmou a infecção em 217 moradores em um único dia. Uma verdadeira bomba.

Uma das infectadas é a atual secretária da Saúde, minha antiga vizinha.

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Com uma população estimada em 238 mil moradores, todo mundo conhece ou conhece quem conheça alguém internado em estado grave neste momento. Boletins informais, divulgados por familiares, e pedidos de oração, chegam aos montes pelo Facebook e grupos de WhatsApp.

A internação de alguns pacientes é acompanhada com interesse, como uma novela. Algumas são infectadas também por boatos e fake news, como a da suposta morte da proprietária do mais prestigiado salão de beleza da cidade. Ela, felizmente, passa bem —deixou a UTI dedicada aos pacientes do coronavírus no dia em que a cidade se trancou de vez.

“O que vivemos em Araraquara é um prenúncio do que está por vir em São Paulo e no Brasil. As autoridades têm que ter a dimensão do que está por vir. Estamos em uma situação mais séria do que em 2020”, afirmou o prefeito, em entrevista à GloboNews.

Amigos de todos os lugares me escrevem para saber como estou e como estão meus familiares. Um ano atrás, fazíamos o mesmo com os amigos que circulavam pelo epicentro da pandemia então emergente, como os moradores e viajantes da Europa e da China. Em poucos meses, a cidade onde nasci se tornou o epicentro das atenções. Duas cidades vizinhas, Américo Brasiliense e Santa Lúcia, tomaram medidas semelhantes.

O anúncio do lockdown total fez com que muitas pessoas corressem às portas dos supermercados enquanto a entrada era permitida na última quinta-feira. Imagens das filas correram o país e geraram críticas —de que adianta fechar a cidade se na véspera elas vão se aglomerar para sobreviver?

Meu irmão era um desses moradores. Na fila, ele não ouviu queixas ou revoltas pelas medidas. A corrida por mantimentos, que coincidiu com o dia da entrega do vale-salário para muitos empregados, era sinal de que as pessoas estavam de fato conscientes de que precisariam ficar em casa pelas próximas 60 horas. (Revolta mesmo, segundo quem estava ali, era com vizinhos e conhecidos que viveram a vida loucamente no fim do ano para cá. Todo mundo na cidade tem alguma história de quem dançou no limite da responsabilidade e do precipício nas últimas semanas, iludidos com o retorno de uma suposta normalidade que nunca se confirmou).

Em vez de revolta, o tom ali —e nas pessoas mais próximas com quem conversei desde então— era de resignação. Meus pais, por exemplo, já não insistem para que o filho visitante assuma os riscos de atravessar uma Araraquara conflagrada e jante com eles do outro lado da cidade.

Mesmo os que desdenharam, até outro dia, da pandemia, mudaram o tom. O medo de se contaminar e não ter, literalmente, pra onde correr, falou mais alto. E Araraquara hoje é uma cidade pautada pelo medo.

Ao menos nas primeiras 24h é possível dizer que a nova lei “pegou”. Os grilos que cantavam na noite de domingo, o único ruído que vinha de uma rua movimentada em condições normais de pressão e temperatura sanitária, davam a medida do novo normal. O som dos pássaros da manhã silenciosa, cortado apenas por uma ou outra moto, também.

Até quando a adesão vai durar é a pergunta que se faz.

Por mais paradoxal que pareça, a paciência é nada mais do que uma dádiva que corre contra o tempo —principalmente quando não há discurso e estratégia consensuais entre governos federal, estaduais e municipais. As marcas dos humores e feridas abertas da política nos últimos anos estão em toda parte. E supuram a céu aberto enquanto a ordem é trancar as portas.

O relato de um amigo comerciante ajuda a entender a tensão. Para ele, a cidade está resignada agora, mas segue dividida —e o apoio às medidas varia de acordo com as simpatias e antipatias em torno do partido do prefeito, o PT.

“Muitos apoiam, acham que a medida vai ajudar, que é o melhor a ser feito e etc. Alguns deles, inclusive, são donos de comércio, como eu. Acredito mesmo que o lockdown seja necessário. Não tenho nenhum dado científico para pensar assim, apenas acredito que ajudará a segurar um pouco a contaminação. Mas sei também que as indústrias permaneceram abertas na fase vermelha, que o prefeito autorizou a abertura das escolas sem o mínimo de infraestrutura prometida e que festas em boates e chácaras aconteciam há cerca de um mês. Tenho sócios simpáticos ao Bolsonaro e ao Paulo Guedes (ministro da Economia) que chamam o prefeito de louco, ditador, e bla-bla-bla. Eles dizem que tudo é uma questão política e que é preciso investigar gastos em hospitais, compra de respiradores, e que o lockdown não vai resolver nada. Para eles, todos vão se reunir em casa e tudo vai piorar porque o lockdown foi mal planejado, causou aglomeração e tudo estará pior daqui 15 dias.”

Como um jogo de torcidas, por enquanto tudo se resume a um pensamento desejoso e ideias pré-fixadas conforme a orientação no debate de 2016 até aqui. É essa basicamente a diferença dos esforços por aqui, marcados pela polifonia, e os de países-modelo no combate à pandemia, como a Nova Zelândia.

Essas duas semanas serão cruciais para mostrar ao restante do país se os esforços podem ou não evitar o colapso. Até aqui, a sensação é que estou ainda no laboratório em microcosmos de uma experiência que pode ser a regra, e não a exceção, deste dia em diante.