Arautos da moralidade manterão apoio a Bolsonaro após o caso Flávio-Queiroz?

Flávio Bolsonaro, durante a campanha que o levou ao Senado. Foto: Mauro Pimentel / AFP via Getty Images

Mais de três anos e meio se passaram desde que o juiz Sergio Moro melou a nomeação do ex-presidente Lula para a Casa Civil ao divulgar um áudio em que a então presidenta Dilma Rousseff orientava o ex-futuro ministro a usar um documento a ser entregue pelo “Bessias” em caso de necessidade.

Naquela noite, após a conversa ser noticiada no Jornal Nacional, milhares de pessoas foram às ruas exigir não apenas a suspensão da nomeação, mas o fim do governo que se mostrava moralmente indefensável, na avaliação de boa parte dos manifestantes, desde o início da Lava Jato.

Muita água rolou desde então. Dilma caiu pouco depois. Condenado por Moro em decisão confirmada pela segunda instância, Lula foi preso em 2018 e não pôde concorrer à Presidência naquele ano. 

Jair Bolsonaro, com forte discurso anticorrupção, encontrou um portão arrebentado à entrada do Planalto. Eleito, nomeou Sergio Moro como seu superministro da Justiça e da Segurança Pública.

Um ano depois, é um dos filhos do presidente, o senador Flávio Bolsonaro (sem partido), quem precisa agora recorrer ao Supremo Tribunal Federal com um pedido de habeas corpus. 

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Alvo de protestos recentes de bolsonaristas e lavajatistas após julgar que presos em segunda instância, como Lula, deveriam recorrer em liberdade até o processo transitar em julgado, a corte agora tomará a decisão que pode ser fundamental no destino do senador e do próprio governo. 

A expectativa é que, durante o recesso, as investigações sobre o parlamentar possam ser paralisadas novamente por determinação de algum ministro. 

Isso já havia acontecido entre julho e agosto, a pedido do senador. Ele voltou à mira após o próprio STF autorizar o compartilhamento de dados bancários e fiscais com a polícia e o Ministério Público sem autorização judicial.

A precaução do senador mostra que há o temor do que possa vir por aí.

Segundo o Ministério Público do Rio de Janeiro, o volume de depósitos em dinheiro vivo na conta de uma loja de chocolate de Flávio Bolsonaro era desproporcional ao que usualmente é movimentado em negócios semelhantes.

A movimentação, dizem os agentes, coincidiam com as datas em que Fabrício Queiróz arrecadava parte dos salários dos servidores do gabinete do então deputado estadual -- dinheiro público, portanto. Queiroz é o ex-assessor da família Bolsonaro que alertou um interlocutor, em áudio, que o MP tinha um cometa para “enterrar na gente”. Seu advogado acaba de deixar o caso alegando “foto íntimo”.

O cometa do MP mostra que o ex-assessor usou empresas controladas pelo ex-PM Adriano da Nóbrega, suposto chefe de uma das maiores milícias do Rio, para lavar parte do dinheiro. A mãe e a ex-mulher do acusado trabalhavam no gabinete de Flávio na Assembleia Legislativa do Rio (Alerj). A suspeita é que elas fossem funcionárias-fantasma e que o suposto miliciano ficava com parte da “rachadinha”.

A suspeita, portanto, é que o dinheiro público supostamente desviado do gabinete alimentava a milícia no Rio.

O presidente, que pode ser visto em diversas imagens de arquivo com Queiroz, e que já atribuiu ao pagamento de um empréstimo o dinheiro depositado por ele na conta da primeira-dama, que empregava em seu tempo de deputado uma filha do ex-assessor que batia cartão em Brasília enquanto trabalhava como personal trainner no Rio, diz que não tem nada a ver com a conversa e que o “Brasil é muito maior do que pequenos problemas”.

Não se sabe por que, em meio às revelações, os defensores da lisura que emprestam seu prestígio ao governo ainda não entregaram seus cargos.

Parte dos eleitores já desembarcou.

Se descambar para as ruas, como em 2016, há o risco de alguém sacar a arma do já ventilado “novo AI-5” para conter qualquer revolta que certamente será atribuída às hienas retratadas em um vídeo no Twitter.

Com tanto cometa espalhando estilhaços, quem, fora os ex-aliados descartados e já jogados na estrada, estará disposto a blindar o governo?