Arcebispo de Belém é investigado por suposto abuso sexual de ex-seminaristas

EDUARDO LAVIANO
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BELÉM, PA (FOLHAPRESS) - O arcebispo de Belém, dom Alberto Taveira, está sendo investigado a pedido do Ministério Público do Estado do Pará pelo suposto abuso sexual de ex-seminaristas menores de idade. O caso foi revelado pelo jornal El País no dia 20 de dezembro. Neste domingo (3), o programa Fantástico, da TV Globo, veiculou o depoimento de três ex-seminaristas que teriam sido abusados. Os jovens pertenciam ao Seminário São Pio X, em Ananindeua (região metropolitana de Belém) e tinham entre 15 e 18 anos no período entre 2010 e 2014. Eles alegam que os abusos ocorriam na casa do arcebispo. O Ministério Público do Estado confirmou que recebeu denúncias de possíveis situações de abuso relacionadas ao arcebispo. As denúncias foram distribuídas aos promotores de Justiça, que requisitaram a abertura de inquéritos policiais. A Polícia Civil confirmou a abertura de inquérito, mas informou que procedimentos policiais tramitam em sigilo. O Vaticano encaminhou uma equipe da Santa Sé para uma visita apostólica para apurar o caso. Ao Fantástico, os ex-seminaristas afirmaram que dom Alberto recebia os jovens no próprio quarto e os indagava sobre questões íntimas como masturbação, orientação sexual e o tamanho dos pênis dos adolescentes. Um deles relatou que, após os questionamentos, o arcebispo passou a tocar nas partes íntimas dos então seminaristas, afirmando que aquilo seria uma coisa normal. "Ele disse que aquilo ali era normal, coisa de homem. Mas, assim, eu não via maldade porque eu confiei muito, por ele ser uma autoridade. Também não tinha experiência. Mas aquilo já foi se tornando permanente e mais agressivo. Ele já me recebia na porta e já ia logo pegando", disse ao programa um dos ex-seminaristas, que relatou ter sofrido abusos por dois anos. Outro ex-seminarista contou uma história semelhante. Disse que o arcebispo puxava conversas sobre questões íntimas até que, em um determinado dia, abaixou as suas calças e o tocou. Os três depoimentos trazem um ponto em comum: a promessa, da parte de Taveira, de uma suposta cura para a homossexualidade dos ex-seminaristas. Na reportagem do El País, um dos ex-seminaristas afirmou que este suposto atendimento para "cura da homossexualidade" chegou a gerar uma fila de meninos na casa do arcebispo de Belém. O arcebispo costumava indicar a eles a leitura do o livro "A batalha pela 'normalidade' sexual e homossexualidade", do psicólogo holandês Gerard Aardweg, um especialista em homoerotismo no sacerdócio. Os ex-seminaristas ganharam uma cópia da publicação antes da "orientação espiritual" no quarto de Taveira, que teria como objetivo livrar os jovens da homossexualidade e das outras tentações da vida mundana. "Outra coisa comum era a reza junto ao corpo. Ele chegava junto de você, se roçando, e fazia uma reza em algum lugar do seu corpo nu. Teve vez que era no rosto e achei que ele ia me beijar. Tive que pegar nele e masturbá-lo, ele pegava no meu pênis e tentava fazer com que eu tivesse uma ereção", disse um ex-seminarista ao El País. Ele ainda afirmou que o arcebispo ficava agressivo e violento quando os adolescentes não conseguiam seguir as ordens dele, afirmando que eles não estariam progredindo no tratamento. Antes da publicação dos depoimentos na imprensa, no dia 6 de dezembro, Taveira fez um pronunciamento no qual informou sobre a existência das investigações que o envolviam. "Recebi com tristeza, há poucos dias, a informação da existência de procedimentos investigativos com graves acusações contra mim, sem que eu tenha sido previamente questionado, ouvido ou tido qualquer oportunidade para esclarecer esses pretensos fatos postos nas acusações", afirmou ele, por meio do site oficial da Arquidiocese de Belém. Em cartas internas direcionadas aos diáconos e sacerdotes, ele pediu que as informações veiculadas na imprensa não sejam tomadas como verdade. "Sempre que houver qualquer questionamento sobre minha pessoa e meu ministério, venha conversar comigo, com toda liberdade", orientou Taveira. As denúncias foram levadas ao Vaticano, que instaurou um processo em parceria com as autoridades civis. "A iminente divulgação em mídia nacional, ao que tudo indica, causará danos irreparáveis à minha pessoa e provocará um profundo abalo à Igreja", afirmou. Na ocasião, padres saíram em defesa de dom Alberto nas missas da cidade e uma petição virtual com o título "Não assassinem a reputação do Bispo de Belém" já contava com 2.775 assinaturas. A denúncia contra o arcebispo foi inicialmente feita a dois padres de Belém, entre o fim de 2017 e 2018. Em junho de 2019, ambos registraram os depoimentos dos quatro ex-seminaristas e escreveram uma carta entregue a Dom José Azcona, bispo emérito do Marajó, conhecido pela luta contra o abuso e exploração sexual de crianças e adolescentes no arquipélago vizinho de Belém. No documento, os padres dizem que têm certeza da veracidade dos fatos narrados pelos ex-seminaristas. Procurado, Azcona disse que não irá comentar o caso. A Arquidiocese de Belém informou que está acompanhando as investigações em curso, mas, devido ao sigilo, não pode divulgar mais informações. A defesa do arcebispo afirma que Taveira ainda não foi ouvido pelo Ministério Público, apesar de ele estar à disposição. A presidência da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) disse ter tomado conhecimento das investigações envolvendo o arcebispo e que "acompanha o percurso doloroso com orações e fraterna amizade". Além da CNBB, padres como Marcelo Rossi e Fábio de Melo declararam apoio a Taveira nas redes sociais. Até o momento, 37 entidades, entre elas a Arquidiocese de Santarém, no oeste do Pará, assinaram um manifesto pedindo o afastamento do arcebispo da Arquidiocese de Belém até o fim das investigações.