Arctic Monkeys: cordas e ironias dão o tom da maturidade no novo disco

Aos 36 anos de idade (os 16 últimos passados nas paradas de sucessos), era inevitável que o cantor e compositor inglês Alex Turner acabasse atingindo a tal maturidade artística. O fato de ser o líder de uma das mais populares bandas de rock de sua era, o Arctic Monkeys, não o deteve — Alex carregou-a com ele em “The car”, sétimo álbum do quarteto, lançado hoje, a poucos dias das apresentações que fará no Brasil (4 de novembro na Jeunesse Arena do Rio, 5 no Primavera Sound, de São Paulo, e 8 na Pedreira Paulo Leminski, de Curitiba).

A guitarra é um instrumento discreto, que apenas pontua passagens e ajuda a construir climas, nesse disco de canções com estruturas complexas, tanto de música quanto de letra. Evolução natural de “Tranquility Base Hotel & Casino” (o álbum anterior, de 2018, em que Alex pegou emprestado a sonoridade dos trovadores pop franceses dos anos 1970 para contar histórias de um hotel de veraneio na Lua), “The car” vai além ao acrescentar referências da soul music orquestral de Isaac Hayes e elaborados arranjos de cordas — compostos pelo cantor com o produtor James Ford, e depois burilados por Bridget Samuels, conhecida pela supervisão das trilhas de filmes como o assustador “Midsommar: o mal não espera a noite”.

De certa forma, em “The car”, Alex Turner segue, agora na Terra, como o narrador que fora em “Tranquility Base”: o crooner-cronista dos momentos depressivos que consegue espiar pelas frestas nas vidas dos ricos e famosos. Entre jet-skis, globos de espelhos, escadarias de mármore e candelabros — palavras que, em inglês, dançam na sua boca —, ele vai construindo mais um disco conceitual, de canções que podem não ter um apelo pop ou um refrão grudento, mas que traduzem muito sentimento e deixam o ouvinte, muitas vezes, em estado de suspensão.

"Jardineiros': ‘Bolsominions querem ensinar o Marcelo D2 a fazer o Planet Hemp’, debocha rapper

‘Adão Negro’: 8 curiosidades sobre o filme com Dwayne Johnson que chega aos cinemas

O disco abre com a dramática canção-de-fim-de-caso “There’d better be a mirrorball”, que aos brasileiros pode remeter ao Roberto Carlos mais romanticamente pesado dos anos 1970, embora a letra seja carregada de ironia. O tempo também fecha — de forma bonita, porém — em “Sculptures of anything goes”, na faixa-título e em “Mr Schwartz”, guiada por violão até a apoteose das cordas. E o céu desanuvia um pouco em “Body paint”, um daqueles contos surreais em que Alex Turner atinge a graça suprema nos versos “Faça sua viagem do tempo na câmara de bronzeamento/ para que o sol não o flagre chorando”).

A parte mais soul de “The car” traz algumas das melhores canções do disco, como a autorreferente “Big ideas” (“Eu tinha grandes ideias, a banda estava tão animada”) e “Jet-skis on the moat”, pura Motown 70 para embalar o mais fino sarcasmo — “Você está pensando em algo/ ou só está satisfeita em ficar aí vendo/ a pintura secar?”. Acima da média é também a faixa de encerramento, “Perfect sense”, com melodias, piano e cordas que aspiram a um Burt Bacharach e letra que resume o conceito do disco: “Revelação... ou seu dinheiro de volta!”

'Monotonía': Entenda a letra da primeira música de Shakira após separação de Piqué

REP Festival 2023: Escalação provoca discussões na internet

Impressionante exercício estético no mainstream do rock, disco que põe em xeque o conceito saudosista do retrô (ele não revive nada, é mais como se existisse nos anos 1970 de um universo paralelo), “The car” é a reinvenção mais profunda de uma banda que nunca deixou de se reinventar. E que agora terá, outra vez, que provar ser possível acomodar em seu show as músicas novas junto com os velhos hits. Fãs ou não, os brasileiros não perdem por esperá-la.

Cotação: Bom