Melhor samba do ano, Mocidade sucumbe com problemas de evolução

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RIO — O melhor samba da safra 2022 confirmou sua força e qualidade no desfile da Mocidade. O povo da Zona Oeste gritou o hino do refrão Arerê Komoredé como se não houvesse amanhã. Um prazer acompanhar os independentes na sua homenagem a Oxóssi. Mas dramáticos problemas em alegorias afastam a verde e branco da disputa do título e podem até inviabilizar a volta no Sábado das Campeãs.

O abre-alas triplo desacoplou e chegou a ficar descontrolado no primeiro módulo de julgamento, pondo em risco quem estava perto.

A estrutura seguiu um problema até o fim do desfile, e o problema só foi resolvido após 10 minutos, o suficiente para que um buraco fosse aberto na frente do setor 3. No final, na altura da última cabine de jurados, o carro voltou a travar, mas por poucos instantes dessa vez. E a estrutura, cuja composição era semelhante à da Grande Rio que sofreu problemas em 2020, foi desmontada ainda no setor 13.

O carro do elefante desfilou com graves problemas de acabamento — estruturas expostas e pedaços quebrados. Uma lástima, que arranha a linda narrativa sobre Oxóssi.

A comissão de frente usou drone para reproduzir a flechada do orixá que salvou o povo da fome, arrancando aplausos da plateia. Alas bem vestidas abordaram os vários aspectos da entidade, inclusive o sincretismo carioca com São Sebastião. Teve até fantasia de cardeal na procissão!

Tomara que o espetacular samba da parceria liderada por Carlinhos Brown passe novamente pela Sapucaí. Mas não será simples materializar a reprise.

Carnaval preto

Um dos compositores do samba, Carlinhos Brown saudou o "carnaval preto" da Mocidade, visto em diversas escolas na em 2022.

— "O Batuque ao caçador" é a congratulação de tudo o que o carnaval representa esse ano. Desde a criação do sambódromo, nunca vi uma comunicação sobre reafricanização no Brasil com tamanha força. As escolas, mais do que nunca , assumem sua espiritualidade — afirmou Brown, que desfilou à frente da bateria, com seus quase 300 integrantes carecas, em alusão a odé, uma das representações de Oxóssi, o orixá homenageado.

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Comissão de frente funciona

Como em 2020 — quando a cantora Elza Soares surgiu em forma de holograma num tripé — , a Mocidade deixou o público de queixo caído com a apresentação da comissão de frente. Em uma encenação do conto em que Oxóssi, orixá protetor da agremiação e tema do enredo da escola em 2022, lança sua flecha sobre uma ave-bruxa e liberta sua aldeia, a arma voa através de um drone até derrubar seu alvo.

Quinze componentes, que não se revezam em trocas de elenco, realizam acrobacias arrojadas em meio a tambores gigantes, num show visual embalado por expressões corporais inspiradas em Oxóssi. Foram cinco meses de ensaios para que o espetáculo coreografado por Saulo Finelon e Jorge Teixeira ganhasse forma.

— Pensamos numa comissão audaciosa, juntando a dança com a tecnologia, o que envolve muitos riscos. Então os ensaios foram imprescindíveis. É aí que surge a tal magia — diz Saulo, sobre a comissão de frente que aborda a "lenda do caçador de uma flecha só". — Precisávamos apresentar um trabalho muito bem coreografado. Um passo fora do lugar poderia acarretar num grande erro.Nossa intenção é sair do lugar comum. A gente arrisca para não fazer mais do mesmo. Dessa vez, a gente inovou ao apresentar uma coreografia para todos os lados da Avenida. É um espetáculo que todo o público pode apreciar.

Reverência a Oxóssi

Há décadas, a comunidade de Padre Miguel pedia para que Oxóssi fosse celebrado na Avenida pela agremiação, já que uma das principais marcas da "Não Existe Mais Quente", bateria da escola, é o toque de caixa em homenagem a Oxóssi. A bateria, aliás, é outro ponto alto do desfile de 2022. Os ritmistas levantaram as arquibancadas e chamaram atenção pelo mesmíssimo visual: todos, inclusive, a rainha Giovana Angélica rasparam o cabelo, em referência à imagem de Oxóssi.

No meio das carecas da bateria, os únicos fios de cabelo visíveis eram os da fantasia de príncipe Ketu, vestida por Mestre Dudu, que há 10 anos comanda a bateria Não existe mais quente. Segundo ele, que explicou que o adiamento do carnaval ajudou a reforçar os ensaios das nossas, os integrantes chegaram à Sapucaí nesta noite com "sangue nos olhos" em busca da nota 40 na apuração, o que não ocorreu nos últimos anos.

Rainha de bateria, Giovana Angélica diz que resolveu passar a máquina zero no cabelo depois de ver todos os ritmistas fazerem o mesmo. Na ocasião, ofertou o cabelo para Oxum, num ritual próprio.

— Não tenho apego com a questão visual. A vaidade não existe nesse sentido. Meu apego é apenas espiritual — ela conta, usando lentes amarelas nos olhos. — Foi uma decisão minha partilhar esse momento com a bateria e raspar o cabelo. Não tinha como ser algo segregado para os ritmistas.

Ao longo do desfile, num "batuque ao caçador", com diz o enredo, a Mocidade pretende apresentar as qualidades de Oxóssi — também agricultor, médico e feiticeiro —, esmiuçando as lendas que cercam a divindade africana.

Dos terreiros para a Avenida

A Mocidade Independente de Padre Miguel colocou o toque do agueré e a batida dos terreiros na Avenida, na saudação a Oxóssi, seu padroeiro e homenageado deste carnaval, fazendo um arerê na Sapucaí, ou seja, uma festa, uma algazarra. Com o enredo “Batuque ao Caçador”, que exalta o orixá e ao mesmo tempo rende homenagens a figuras importantes de sua própria história, a verde e branco aposta tudo para mirar no título.

Autores: Carlinhos Brown, Diego Nicolau, Richard Valença, Orlando Ambrosio, Gigi da Estiva, Nattan Lopes, J. J. Santos e Cabeça do Ajax

Intérprete: Wander Pires

Okê Arô, Ofá da mira certeira
Dono da mata, Okê, Okê, Mutalambô
Seu ajeum já preparei na quinta-feira
No fundamento, a batida incorporou
Samborê, pemba, folha de jurema
Há proteção de Ogboju Odé
Pai Oxalá lhe deu seu diadema
Quem rege meu ori governa minha fé
Nos idilês a ancestralidade
O Alaketu no Egbê da Mocidade

Oxóssi é caçador de uma flecha só
Herdeiro de Iemanjá, irmão de Ogum
Aquele que na cobra dá um nó
Aquele apaixonado por Oxum

Oxóssi é caçador de uma flecha só
Herdeiro de Iemanjá, irmão de Exu
Aquele que na cobra dá um nó
Aquele apaixonado por Oxum

Ibualama o mar atravessou
No Gantois, virou São Jorge guardião
Um rio inteiro em teu nome, meu senhor
Quem é de Oxóssi é de São Sebastião
Ô, Juremê, ô, Juremá
Caboclo lá da jurema é cacique nesse congá
Ô, Juremê, ô, Juremá
Mandiga de Tia Chica fez a caixa guerrear
Inverteu meu tambor
De Dudu e de Coé, foi Quirino, foi Miquimba
De Jorjão, o agueré
Fez do aguidavi, baqueta da nossa gente
Pra evocar nesse terreiro toda alma independente

Arerê, Arerê, Komorodé
Komorodé, Arolé, Komorodé
Arerê, Arerê, Komorodé
Todo Ogã da Mocidade é cria de Mestre André

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