Argentina busca difícil unidade política após ataque contra Cristina Kirchner

A Câmara dos Deputados da Argentina realizou neste sábado (3) uma tensa sessão especial para tentar enviar um sinal de unidade política e rechaçar o ataque sofrido há dois dias pela vice-presidente Cristina Kirchner, do qual ela saiu ilesa, mas que mantém o país em estado de choque.

Ainda que com muitos questionamentos sobre as circunstâncias do atentado - em que um homem apontou uma arma para o rosto da vice-presidente - e em meio a uma tensão política que não cede, a Câmara se reuniu para repudiar o fato, com um apelo à convivência pacífica.

"A Ilustre Câmara dos Deputados da Nação expressa seu forte repúdio à tentativa de magnicídio. (...) Exigimos o pronto e completo esclarecimento e condenação dos responsáveis por este lamentável acontecimento, que mancha a vida na democracia. Exortamos à toda a liderança e à população que busquem os caminhos que levem à paz social", disse o texto acertado no último minuto entre as bancadas parlamentares e votado por braços erguidos.

Apesar de aprovar o texto, os deputados do partido Pro (Proposta Republicana, do ex-presidente Mauricio Macri, principal da oposição de centro-direita) deixaram a sessão sem qualquer pronunciamento.

"Não queremos que este evento gravíssimo seja usado com o objetivo de gerar mais divisão, atribuir culpados e muito menos tornar-se uma plataforma para atacar a oposição política, o poder judiciário e a mídia", afirmaram em alusão a reprovações mútuas sobre a alegada propagação do discurso de ódio.

Entre os opositores que permaneceram na sessão, o deputado Mario Negri, do Partido Radical (social-democrata), lamentou "o discurso que aponta que o violento é o outro".

"É puro cinismo, é olhar a trave no olho alheio. Não ajuda, não é sincero. É preciso um grande mea culpa para ter a dignidade de convocar um acordo para defender a democracia", disse Negri.

- Ataque -

O Senado, presidido pela própria Kirchner, já havia condenado formalmente o ataque na noite de quinta-feira, quando ocorreu.

Kirchner é acusada de suposta corrupção durante seus dois mandatos presidenciais (2007-2015), em um julgamento que ela denuncia como perseguição. O Ministério Público solicitou em 22 de agosto que ela fosse condenada a 12 anos de prisão e inabilitada politicamente, o que exacerbou ainda mais a tensão no ambiente político do país.

Para chegar até ela, o agressor se infiltrou em um grupo de apoiadores, que há duas semanas esperavam por ela todas as noites na porta de sua casa em Buenos Aires para expressar sua solidariedade.

O autor do atentado, que foi imediatamente preso, é um homem de 35 anos, nascido no Brasil de mãe argentina e pai chileno. Até agora ele se recusou a depor perante a justiça, que está investigando se ele agiu sozinho ou teve algum tipo de apoio.

Para o cientista político Diego Reynoso, da Universidade San Andrés, o ataque deve forçar a classe política a reduzir a crescente polarização.

"Mas é difícil saber se isso será possível com esse nível de ativação política de uns e de outros. Essa crispação não vai a lugar nenhum. Não gera estabilidade, não resolve os problemas de inflação ou emprego", afirmou à AFP.

Kirchner, de 69 anos, tão amada por apoiadores do peronismo quanto detestada por opositores, continua exercendo grande influência e poder na Argentina, sete anos depois de deixar a presidência e um antes das eleições de 2023, sobre as quais ainda não demonstrou suas intenções.

Na próxima semana, terá início a etapa de argumentações da defesa no julgamento de Kirchner e outras 12 pessoas por corrupção. Estima-se que sua vez será no final de setembro.

A vice-presidente já foi absolvida em vários casos, mas ainda enfrenta cinco processos judiciais.

nn/mr/ic