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La Plata

LA PLATA, ARGENTINA: Em julho, estudantes de escolas técnicas de La Plata saíram às ruas para protestar por infraestrutura nas escolas e melhores salários para os professores. (FOTO: Nacho Amiconi)

Argentina: "Me dá tristeza ver pessoas deixando de comer para pagar impostos"

Por Ignacio Amiconi e Rosana Pinheiro
Fotos: Ignacio Amiconi

Liquidacion por cierre, em português Liquidação para encerramento.

Placas com esses dizeres passaram a fazer parte do cenário da cidade de La Plata, capital da província de Buenos Aires, na Argentina.

Três anos depois de tornar-se presidente com a promessa de recuperar a economia, o empresário Mauricio Macri anunciou na última semana que pediu ao Fundo Monetário Internacional (FMI) que adiante parte do financiamento de 50 bilhões concedido ao país em maio.

Em seu anúncio, o presidente tentou minimizar a situação culpando a “falta de confiança por parte do mercado” e deixando detalhes importantes – como o valor do adiantamento – de fora de sua fala. O dólar atingiu 42 pesos, recorde histórico, e o presidente do Banco Central, Luis Caputo, anunciou o aumento dos juros para 60%, o mais alto do mundo.

Em maio, quando Macri fechou o acordo com o FMI, milhares de argentinos saíram às ruas para protestar contra a decisão. Nos últimos 60 anos, a Argentina pediu ajuda ao Fundo Monetário Internacional 20 vezes. Em 2001, última vez em que isso aconteceu antes de Macri, o país entrou em colapso e o ex-presidente Fernando de la Rúa congelou poupanças na tentativa de evitar fuga de capitais. A situação da Argentina hoje é bem diferente da vivida nos anos 2000, mas não deixa de assustar investidores e, principalmente, a população. “O tempo passou e nenhuma promessa de campanha foi cumprida e a economia segue piorando sem que ninguém tome alguma decisão”, Juliana Irigoyen, 26 anos, empregada do Ministério da Saúde.

Analistas acreditam que a situação está ligada a erros da administração Macri, momento global e o próprio histórico do país. Macri foi eleito prometendo abrir mercado para o mundo, enquanto outros países seguiram justamente o caminho oposto. Com a eleição de Donald Trump, em 2016, os Estados Unidos aumentaram os juros e passaram a ser agressivos em acordos internacionais para proteger o mercado norte-americano, gerando tensões internacionais com vários países. Desde então, a Argentina é um dos países mais prejudicados pela valorização do dólar.

“Voltar ao FMI é ruim para qualquer país” diz Magdalena Lopez Pacheco, 29, jornalista e estudante de história. Assim como milhares de argentinos, ela se sente prejudicada pela estratégia econômica de Macri. “Com um governo como este sem produtividade, é muito difícil obter reservas para devolver o dinheiro ao fundo. Me dá muita tristeza ver como aumentaram as desigualdades entre classes, ver pessoas deixando de comer para conseguir pagar os impostos”, lamenta. “Depois de três anos de Cambiemos [coligação do presidente Macri] me sinto angustiada: a pobreza aumentou, o número de desempregados aumentou e há cortes em vários setores como educação e saúde pública”.

A estudante de psicologia Guadalupe Oliveira, de 25 anos, conta que, apesar de não ter sido diretamente afetada pela crise, viu de perto o drama vivido por membros de sua família: “minha tia, meu tio, primo, esposa do meu primo, todos ficaram desempregados; perderam os empregos na UEP (Unidad Ejecutora Provincial). A minha tia trabalhava lá há 20 anos. Foram muitos dias de luta em dezembro do ano passado quando tudo isso aconteceu. É uma loucura pensar na fragilidade dos trabalhadores neste momento”, conta. “Meu tio votou no Macri, hoje se arrepende. Mas não adianta muito, isso é uma questão cíclica, vai voltar a acontecer porque [as candidaturas] têm relação com os meios de comunicação, as corporações. Hoje fica claro que existe um plano geopolítico para toda a América Latina. Veja o que está acontecendo no Brasil, estão impedindo a candidatura de Lula. Macri é donos de offshores e nada acontece”.

“O nosso futuro econômico tem tudo para ser doloroso e favorável para apenas alguns grupos econômicos”, fala a jornalista Diana Lopez Gijsbert, 47 anos, uma dos 357 jornalistas demitidos da agência pública de notícias da Argentina, a Telam, por recomendação do FMI. “Tudo aconteceu de maneira brutal e sem aviso prévio. Quiseram gerar um apagão informativo para que a população não saiba o impacto dos ajustes terão na saúde, na educação, no comércio etc. Hoje posso afirmar que nenhum trabalhador argentino se sente a salvo”.

“A crise, além de problemas econômicos imediatos, traz consigo a incerteza de não saber como será o seu futuro. Conheço pessoas que perderam seus empregos e estão com dificuldades enormes para conseguir novos. E sei que no meu caso, mesmo sendo empregado do Estado, não estou mais à salvo das grandes demissões”, diz Emiliano Cambiaggio, 28 anos, estudante de geografia e trabalhador do Ministério da Produção.