Argentina joga Copa América entre luto por Maradona e esforço por Messi

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O status de Maradona na Argentina se faz presente nos detalhes, nas palavras que às vezes até ficam meio perdidas na construção do raciocínio maior. Questionado se a participação albiceleste na Copa América poderia ser emocionalmente afetada pelo fato de ser a primeira competição desde a morte do ex-camisa 10, ocorrida em novembro passado, Hérnan Sisto, jornalista do canal TyC Sports, afirmou que não vê a perda do ídolo como um fator motivacional para os jogadores, mas sim para o povo:

— Creio que mexerá mais com os torcedores, o fato de ser a primeira Copa sem a presença de Maradona. Sem a presença física, não é mesmo?

Claro que sim, porque Maradona na Argentina é Deus e, como tal, estará para sempre presente, ainda que em outros planos que não o material. Herdeiro da camisa 10, da genialidade em campo, Messi corre contra o tempo para conquistar para si um pouco dessa imortalidade que El Pibe construiu.

Além do carisma insuperável, o que tornou Maradona divindade foi o título da Copa do Mundo de 1986. Já Messi, perto de completar 34 anos, ainda persegue a primeira taça pelo país. A Copa América que começa domingo desponta como a chance derradeira para tirá-lo do status de reles mortal pela seleção da Argentina. Ainda que seja o terceiro jogador com mais partidas pela equipe e o maior artilheiro da história, sem um troféu para chamar de seu, algo ficará faltando ao legado.

Na teoria, não será a última oportunidade de título. Lionel deve se classificar para a Copa do Mundo do Qatar, ano que vem, e jogar provavelmente seu último Mundial da carreira. Mas, na prática, atualmente não há grandes ilusões quanto ao que os bicampeões serão capazes na competição.

— Existem muitas seleções em condições melhores — reconheceu Sisto: — Parece ser mais acessível ganhar a Copa América do que ganhar o Mundial.

Scaloni ainda oscila

Para isso, Messi dependerá mais do que nunca dos jogadores e da comissão técnica ao seu redor. Sem a mesma constância de antes, o craque argentino, na reta final da carreira, testemunha o trabalho ainda irregular de Lionel Scaloni, técnico responsável pela tentativa de renovação da equipe. Por enquanto, há muita transpiração e pouca inspiração em campo. É louvável a demonstração clara de empenho de uma nova geração que tenta acabar com o jejum de 28 anos sem títulos da seleção principal.

Coube a Scaloni assumir o papel de se manifestar, pelo menos oficialmente, como contrário à disputa da Copa América este ano. Não importa o país-sede, mas devido ao cenário da pandemia no continente. A Associação de Futebol Argentino fez questão de se posicionar oficialmente garantindo a presença da seleção nacional na competição.

Ainda que a contragosto, será uma nova oportunidade para Scaloni melhorar o desempenho da equipe. Apenas a genialidade de Messi não bastou até aqui.

— O que mais preocupa é que ele ainda não tem estilo de jogo definido — afirma Lucas Ajuria, jornalista argentino. — A verdade é que, por mais que não lhe falte pulso, Scaloni ainda não encontrou os titulares que passem segurança. Custa muito à equipe criar oportunidades de gol. A última Copa América deixou boa impressão, mas não é suficiente.

Não deixa de ser irônico pensar que a imortalidade de Messi com a camisa da Argentina possa chegar justamente quando ele parece mais frágil, mais mortal. Lautaro Martínez é atualmente o atacante que mais enche os olhos na equipe, no auge de seus 23 anos, um dos principais destaques da Internazionale no título italiano que acabou com a hegemonia de nove temporadas da Juventus. A ordem é dividir responsabilidades, não sobrecarregar os ombros já cansados de Messi.

— Scaloni conseguiu fazer com que a Argentina não dependa de Messi, que todos joguem — frisou Ajuria.

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