Argentina se prepara para suspender o acesso ao dólar turismo e dificultar ida de turistas ao Brasil

AP - Natacha Pisarenko

Devido à escassez de dólares no país, o governo argentino prepara medidas para priorizar o uso das reservas internacionais do Banco Central ao setor produtivo, impedindo a compra de serviços turísticos no exterior e o uso do cartão de crédito em viagens internacionais. A medida afetaria diretamente o Brasil, principal país a receber turistas argentinos. Quase 40% dos turistas estrangeiros no Brasil são argentinos.

Márcio Resende, correspondente da RFI em Buenos Aires

A nova ministra da Economia da Argentina, Silvina Batakis, indicou que a suspensão do acesso ao dólar com finalidade de viagens ao exterior é uma medida que o governo poderia tomar para preservar esse "recurso escasso" que, prioritariamente, "tem de estar à disposição da produção". "O direito a viajar (ao exterior) colide com a geração de postos de trabalho", argumentou a ministra quando perguntada se o governo vai proibir o acesso ao dólar turismo. "Tomaremos todas as medidas para que as reservas (do Banco Central) sejam destinadas à produção", priorizou Silvina Batakis, alegando que "o dólar é um recurso escasso”

Questionada se a medida não afetaria um direito dos argentinos, Batakis alegou que "todas as pessoas têm direito às férias", mas que o governo "tem de administrar as reservas para que o país cresça". "Precisamos convidar (os argentinos) a conhecerem mais o nosso país", sugeriu.

Brasil será o mais afetado

Por ano, o Brasil é o país que mais recebe argentinos. Em 2019, ano prévio à pandemia, foram quase dois milhões de turistas ao território brasileiro (1,9 milhão). Em 2018, o número tinha chegado a 2,5 milhões, responsáveis por 38% de todos os turistas estrangeiros que visitaram o Brasil.

Mesmo durante a pandemia, com severas restrições de voos e com a prolongada quarentena argentina, os índices de turistas argentinos no Brasil se mantiveram em 50% do fluxo habitual.

Nesta semana, Sílvio Nascimento, presidente da Agência Brasileira de Promoção Internacional do Turismo (Embratur), projetou que o Brasil espera recuperar o nível de turismo estrangeiro pré-pandemia em 2023. A medida argentina complicaria essa meta.

Sem acesso ao dólar turismo, os argentinos precisariam recorrer ao dólar paralelo, cuja cotação é bem superior, encarecendo a viagem.

O dólar paralelo na Argentina fechou nesta quarta-feira (6) em 255 pesos argentinos, 101% superior ao valor do dólar oficial (132,85 pesos). Para diminuir essa diferença, o governo aplica um imposto de 30% sobre o valor do dólar oficial e mais uma retenção de 35% que pode ser restituída na declaração de imposto de renda. A conta eleva o valor do dólar a 219,20 pesos.

Os argentinos podem comprar até US$ 200 por mês em dinheiro, enquanto a compra de bens e serviços no exterior não tem limites através do cartão de crédito. São esses acessos que o governo se prepara para proibir.

Economia em agonia

Há duas semanas, as restrições aos dólares do Banco Central chegaram para as empresas. Os importadores devem financiar as suas compras no exterior com dólares obtidos por conta própria, 110% mais caros do que a cotação oficial.

Como a produção nacional depende de componentes importados, a medida ameaça paralisar a fabricação local, provocar desabastecimentos e aumentar preços, alimentando a inflação anual projetada agora a 100% em 2022.

A nova ministra da Economia descartou uma desvalorização do dólar oficial. "Não vemos uma expectativa de desvalorização, a não ser a corrida cambial", minimizou Batakis.

No entanto, o mercado financeiro trabalha com um cenário de desvalorização da moeda argentina ou de uma nova moratória, desta vez com a dívida em pesos de curto prazo com os bancos locais. Sem acesso ao crédito internacional e sem diminuir o gasto público, o governo tem apelado à emissão monetária sem respaldo, alimentando a inflação galopante. Para esterilizar parte dessa emissão, o Banco Central emite dívida de curto prazo atrelada à inflação.

A bola de dívida e as poucas reservas do Banco Central levam o mercado financeiro a trabalhar com duas saídas: uma desvalorização do peso argentino de forma ordenada ou uma desvalorização descontrolada com moratória. É o que explica o risco-país da Argentina em 2.700 pontos-base, apenas atrás de Venezuela, Ucrânia e Rússia.