Argentina vive dilema entre medidas mais duras e rejeição popular

SYLVIA COLOMBO
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BUENOS AIRES, ARGENTINA (FOLHAPRESS) - Diante de uma rápida escalada nos casos de coronavírus, atribuída principalmente à circulação das novas variantes, a Argentina enfrenta uma segunda onda da pandemia com sucessivos recordes, quase 28 mil registros de infecção em 24 horas e um total acumulado de mortos que ultrapassa os 58 mil. E, nesse cenário, o governo de Alberto Fernández está emparedado entre a necessidade de tomar medidas mais duras e a rejeição popular decorrente delas. "Assim é muito difícil", escreveu o secretário da Saúde da província de Buenos Aires (que não inclui a capital), Daniel Gollán, em uma rede social no último fim de semana, comentando imagens de uma praça de alimentação de shopping completamente lotada. Para o governador Axel Kicillof, o que o país enfrenta não é uma segunda onda, "é um tsunami". Ele é um dos que mais pressionam o presidente por um lockdown de pelo menos 15 dias em todo o território. O discurso das autoridades da província mais populosa da Argentina ganhou apoio de entidades médicas e científicas que enviaram uma carta a Fernández pedindo maiores restrições para tentar conter o avanço da doença, num ambiente de muitos hospitais já em colapso. Segundo eles, o atendimento nas regiões metropolitanas de Córdoba e Rosário também está próximo da saturação completa. "É possível dizer que estamos vivendo uma nova pandemia", afirmou a ministra da Saúde, Carla Vizzotti, na manhã desta quarta-feira (14), em Buenos Aires. A dificuldade para tomar as medidas necessárias -e impopulares- esbarra no custo político. No ano passado, quando a crise sanitária se apresentou, o governo nacional e o da província de Buenos Aires, que são peronistas (assim como Fernández), sentaram-se à mesa com a oposição -cuja principal liderança é Horacio Rodríguez Larreta, chefe de governo da cidade de Buenos Aires. As três instâncias de governo anunciaram juntas e de modo consensual cada nova fase do enfrentamento da pandemia, mas essa lua-de-mel terminou. Diferentemente do que acontece no Brasil com a gestão de Jair Bolsonaro (sem partido), o governo nacional argentino quer impôr medidas duras de quarentena, mas encontra oposição de alguns governadores. O principal deles é justamente Larreta, pré-candidato à Presidência em 2023, acompanhado dos líderes das demais províncias não-peronistas. Na mira de todos, estão as eleições legislativas de outubro deste ano, que devem renovar parte do Congresso e sinalizar as tendências para 2023. Os peronistas lutam para manter sua maioria no Parlamento, apesar da alta inflação (35,8% ao ano), da crescente pobreza (42%) e das críticas à administração da pandemia. A oposição, por sua vez, liderada pelo ex-presidente Mauricio Macri, quer aproveitar a situação de desgaste do peronismo para ganhar espaço. Em geral, os peronistas se colocam a favor das medidas drásticas contra o vírus, enquanto a oposição considera que a economia não aguenta outro choque como a longa quarentena de 2020 (que foi de março a setembro) e pede mais e mais aberturas. Nas últimas semanas, a queda-de-braço tem se refletido nas tímidas restrições negociadas entre eles. Por exemplo, depois da Semana Santa, houve um anúncio de novas medidas. O governo nacional queria um toque de recolher das 21h às 6h. A oposição pressionou, ao lado de sindicatos dos setores gastronômicos, e conseguiu estender o horário até as 23h. Larreta foi além --e interpretou a lei considerando 23h como o horário máximo para alguém entrar num bar ou restaurante, e não para sair. O resultado é que bares e restaurantes em Buenos Aires estão lotados quase todas as noites, com frequentadores aproveitando os últimos dias de calor do ano e provocando aglomerações em vários bairros da capital. Outra batalha se dá no transporte público. O governo nacional conseguiu se impôr no que diz respeito à limitação de seu uso por trabalhadores essenciais e docentes. O cumprimento da medida, no entanto, é atributo dos governos locais -para embarcar, é preciso mostrar um código QR em um aplicativo-, e a vigilância não tem sido rígida. As aulas presenciais continuam em todo o país, mas há muita pressão dos sindicatos de professores, que pedem retorno ao ensino virtual até que a curva volte a baixar. O chefe de governo da cidade de Buenos Aires, por sua vez, insiste que as escolas não são foco de contágio. Tentando reafinar o discurso, o chefe de gabinete de Fernández, Santiago Cafiero, reuniu-se com autoridades para uma longa reunião na Casa Rosada na noite desta terça-feira (13), tentando estabelecer um cronograma de novas medidas de enfrentamento da pandemia. O presidente, que está com Covid, participou remotamente de Olivos, onde está em quarentena. Mas não houve acordo. E o esperado anúncio de novas restrições da manhã desta quarta foi substituído por um pedido da ministra da Saúde de que precisa de cooperação das autoridades regionais. Vizzotti deu a entender que medidas mais duras podem ser anunciadas até o fim da semana.