Argentinos apertam os cintos para se adaptar à crise econômica

Por Sonia AVALOS, Liliana SAMUEL
1 / 2
Ariel Fernandez (D), un carpintero empleado de manera informal, su esposa, Natalia Morales (I), una maestra escolar, y sus hijas, se sientan a la mesa en Buenos Aires, el 29 de abril de 2019

Uma família entra numa fila no coração de Buenos Aires por um prato de comida doado por caridade; outra corta despesas para chegar ao final do mês. A crise econômica abala a vida dos argentinos e o horizonte parece incerto.

Milhares de pessoas na Argentina caíram na pobreza nos últimos meses em uma combinação dramática de falta de trabalho e inflação crescente, especialmente alimentos básicos como leite, carne e pão, em meio a uma economia recessiva.

Daniel Roger é eletricista, tem 30 anos e desde que ficou desempregado há um ano, procura por "bicos". Junto com sua esposa Andrea Gomez, 26, e seus dois filhos, ele espera por uma porção de comida na Praça de Maio, em frente à Casa Rosada, a sede da presidência argentina.

Não é fácil dar o passo para a caridade: "Você se sente muito mal, fica muito envergonhado", diz Andrea, enquanto amamenta seu filho mais novo.

"Antes, alugávamos um apartamento, mas não conseguimos mais pagar e agora moramos em uma pensão, em um quarto muito pequeno para nós quatro, é difícil pagar e eles vão nos aumentar mais", explica angustiada.

Em 2018, o desemprego chegou a 9,1% e no primeiro trimestre de 2019 chegou a 10,1%. Em um ano 268.300 pessoas ficaram desempregadas sobre 12 milhões de trabalhadores, segundo dados oficiais. A inflação somou 47,6% em 2018 e acumulou mais de 19% até maio de 2019.

Andrea trabalha como fazendo limpeza em edifícios e com assim eles pagam semanalmente a pensão. "A comida e as fralda são caridade", explica.

- "O dinheiro perdeu seu valor" -

Sua história é repetida diariamente em esquinas, praças e paróquias, onde ONGs oferecem comida e roupas todas as noites. "Para muitos, o jantar se tornou uma recordação. Isso não é providenciado com esmolas, mas com política", disse dom Tissera, presidente da Cáritas Argentina, que diz que "o que está se vendo é o empobrecimento da classe média".

Com nove filhos, o mais velho de 15 anos e o mais jovem de um mês, a família de Cintia Sosa (32) nunca foi de classe média, mas tinha a ilusão de ascensão.

Em sua pequena casa na periferia sul de Buenos Aires, tem um forno industrial comprado há alguns anos com a intenção de produzir pizzas e empanadas para vender. Mas o forno está encostado em uma das paredes sem se estressar, porque não tem dinheiro para pagar pelo gás que consome ou para comprar os ingredientes.

"Não dá, não conseguimos fazer", diz entristecida.

Seu marido mantém a casa com contratos temporários como administrador. Por não serem empregados fixos, não aumentam o salário, explica Cintia, "e os preços continuam subindo". A geladeira foi danificada, como a máquina de lavar roupa, e eles não foram conseguiram consertar.

Muitas vezes eles vão para bandejões de caridade e conseguem doações de roupas.

"Antes eu podia comprar sapatos para meus filhos, mas o dinheiro perdeu seu valor", lamenta a mulher, que, apesar de tudo, orgulhosamente aponta que todos os seus filhos estão na escola e recebem bons cuidados médicos.

- Promessas descumpridas e prazeres perdidos -

A promessa eleitoral do presidente liberal Mauricio Macri de liderar o país rumo à pobreza zero foi abalada.

Cerca de 7 milhões de pessoas recebem assistências para aliviar a pobreza, mas os pobres são dobro: 14,3 milhões de pessoas das quais 3 milhões vivem na indigência, segundo dados oficiais de 2018.

Os programas sociais são mantidos no ano eleitoral com o aval do Fundo Monetário Internacional, instituição com a qual a Argentina acordou um programa de ajuste fiscal em troca de um auxílio de 56 bilhões de dólares em três anos.

A inflação desenfreada e o ajuste fiscal também abalaram os bolsos de famílias com mais de um salário.

As tarifas, que até 2015 eram subsidiadas, ficaram mais pesadas devido a aumentos de até 1.000% no gás, na eletricidade, na água e no transporte.

"O dinheiro que agora vai para as taxas é o mesmo que eu costumava chamar o pintor ou o homem do gás", argumenta Ariel Fernández, 41, um carpinteiro que viu sua economia doméstica desmoronar.

Ele, sua esposa - uma professora de 42 anos - e suas filhas, de 5 e 2 anos moram em uma casa humilde em Mataderos, um bairro de classe média baixa, doado por seus pais que se mudaram para uma construção menor.

Os dois juntos ganham em torno de 50.000 pesos por mês (1.080 dólares), uma renda superior aos 30.000 pesos necessários para evitar serem considerados pobres.

"No queremos luxos, somente manter a carne ou os raviólis no final de semana. Não é apenas comer, é uma reunião familiar que tínhamos, algo cotidiano, e fomos perdendo", lamenta.