Armênia anuncia acordo para encerrar guerra com o Azerbaijão

IGOR GIELOW
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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O primeiro-ministro da Armênia, Nikol Pashinyan, anunciou ter assinado um acordo com o presidente do Azerbaijão, Ilham Aliyev, visando encerrar o conflito militar sobre a região de Nagorno-Karabakh nesta terça (10). Em um texto publicado já na madrugada de terça (noite de segunda no Brasil) no Facebook, o premiê afirmou que a decisão foi "muito difícil" e baseada na análise da situação militar, bem desfavorável para os armênios desde que a guerra começou, em 27 de setembro. "Eu vou falar em detalhes sobre tudo isso nos próximos dias. Isso não é vitória, mas não será derrota exceto que você se reconheça como um perdedor. Nós nunca vamos nos reconhecer como perdedores", afirmou. Segundo agências de notícias russas, o presidente Vladimir Putin também assinou o acordo, mas também não houve divulgação de minúcias. O governo em Baku não se manifestou ainda. Os azeris fizeram diversos avanços militares nos últimos dias, tomando vilas em Nagorno-Karabakh. A região com cerca de 140 mil habitantes tem maioria absoluta de armênios étnicos, e havia ficado dentro do Azerbaijão como parte da divisão do Cáucaso após a conquista soviética daqueles territórios, nos anos 1920. O fim da União Soviética, em 1991, acelerou o movimento nacionalista e no ano seguinte, uma guerra emergiu entre as antigas repúblicas comunistas, acabando só em 1994. Os armênios retiveram o controle da área, que chamam de Artsakh, e ocuparam sete distritos em volta da região. Ao longo dos anos houve escaramuças mais ou menos sérias, mas agora a situação mudou devido ao forte apoio turco ao governo de Baku --os países têm sólidos laços étnicos e culturais. O expansionismo militarista de Ancara sob Recep Tayyip Erdogan se somou à crise econômica tanto da Turquia quanto do Azerbaijão, acentuada pela pandemia do novo coronavírus. Guerras são sempre catalisadores de opinião pública, afinal. A Rússia, principal ator político na região, se viu tragada pela situação e buscou um papel moderador mais ponderado. Patrocinou, com um apoio inédito do Ocidente, tentativas fracassadas de cessar-fogo. Isso aconteceu porque Putin tem interesse em trazer o Azerbaijão, que controla ricas províncias petrolíferas e de gás na região do mar Cáspio, para sua órbita política. Havia, portanto, o perigo de um choque maior entre Ancara e Moscou no Cáucaso. Isso se devia ao fato de que a Rússia, para manter uma base militar com 3.000 homens em Gyumri, no leste armênio, em troca de oferecer proteção a Ierevan em caso de agressão externa. O risco pareceu aumentado nesta segunda (9), quando forças azeris no encrave de Nakhivechan, no leste armênio, derrubaram um helicóptero de combate russo. Dois dos três tripulantes morreram, e Baku pediu desculpas pelo que chamou de engano. Ainda é preciso saber os termos do acordo assinado para avaliar seu impacto. Morreram mais de 5.000 pessoas na guerra atual, segundo Putin. Os números são bastante imprecisos. Analistas especulam que uma paz na região seria possível com a devolução dos distritos ocupados nos anos 1990 e a manutenção de Karabakh com os armênios. Como a situação militar ficou muito favorável a Baku nas duas últimas semanas, e Moscou não tem as relações mais calorosas com Pashinyan, o resultado é incógnito. O atual premiê ascendeu ao poder em 2018 após uma revolta popular derrubar o governo anterior, que era muito ligado ao Kremlin. A depender do que foi acertado, poderá acabar sendo uma vitória dupla para Putin e Erdogan, o primeiro como patrocinador da paz e o segundo, por ver o aliado vitorioso.