Um dos melhores filmes do ano, Armaggedon Time é bom demais para o Oscar

James Gray no Festival de Cannes (Foto: REUTERS/Stephane Mahe)
Diretor de "Armageddon Time", James Gray, no 75° Festival de Cannes (Foto: REUTERS/Stephane Mahe)

Por Guilherme Jacobs

Há uma nova moda entre cineastas. Depois do sucesso de Alfonso Cuáron com "Roma", Richard Linklater (Apollo 10 ½), Paul Thomas Anderson (Licorice Pizza*), Kenneth Branagh (Belfast) e - em novembro deste ano - Steven Spielberg (The Fabelsman) decidiram entrar no nascente gênero de “filmes sobre suas próprias juventudes.”

Em Cannes, o diretor James Gray (Ad Astra, Z: A Cidade Perdida) se tornou um dos nomes dessa lista graças ao seu excelente e profundamente honesto "Armageddon Time", longa-metragem através do qual ele visita as memórias do crescimento em Queens nos anos 80, quando Ronald Reagan estava prestes a ser reeleito, o racismo batia na porta na classe média, e o sonho americano parecia, cada vez, ser mentira.

Gray conta que a ideia do filme surgiu após levar os filhos para o bairro onde cresceu. "Havia pouquíssima evidência de que eu tinha morado lá, ou que meus pais e avós tinham morado lá. Do nada, virou uma história de fantasmas. Então essa foi a gênese da ideia."

“O fato sombrio é que eu não sou mais um jovem de 29 anos”, disse Gray durante sua coletiva de imprensa no festival. “E quando você é jovem, você começa a olhar para trás.” O cineasta caiu nos prantos ao ser ovacionado pela audiência, que ficou de pé por sete minutos no Grand Theatre Lumiére. Muitos já apontam o filme dele como favorito para os prêmios do evento.

Gray recrutou o impressionante jovem Banks Repeta para interpretar essa versão levemente fictícia de si mesmo (aqui, ele se chama Paul Graff), mas tirando o novato, Armageddon Time é um grupo de estrelas. Jeremy Strong (Succession), Anne Hathaway (O Diabo Veste Prada) e um espetacular Anthony Hopkins (Meu Pai) são, respectivamente, os pais e avô do menino, que está prestes a entrar na fase da vida onde descobertas difíceis precisam ser feitas se ele deseja amadurecer. Uma delas, por exemplo, é que seus pais serem contra Reagan e denunciarem atitudes abertamente racistas não significa que eles estão imunes a errar no quesito racial. Basta ver como eles tratam Johnny (Jaylin Webb), o melhor amigo de Paul na escola. Strong e Hathaway são brilhantes na comunicação dessas contradições.

Elenco de
Elenco de "Armageddon Time" - Anne Hathaway, Jeremy Strong, Banks Repeta and Jaylin Webb - no tapete vermelho do Festival de Cannes (Foto: REUTERS/Stephane Mahe)

Diferente do que Linklater e Branagh fizeram em suas obras, Gray não trata Paul só como um receptáculo de informações sobre um período formativo na sua história. Ele é, em primeiro lugar, um personagem. Assim como seus pais, ele erra, comete equívocos e nem sempre sabe lidar com as situações complexas da nova década americana. Hopkins, que faz aqui outro trabalho digno de estatuetas, é o responsável por guiar o menino na busca por respostas, atuando com ternura e melancolia no papel de um avô que conhece, de perto, os perigos de uma narrativa de meritocracia e superioridade dentro de uma sociedade.

Esse discurso tão bem exposto por Gray durante toda a obra só se torna didático da cena mais surpreendente de todo o filme - quando Jessica Chastain aparece de surpresa como Maryanne Trump, irmã de Donald Trump. Numa palestra para a escola de Paul, ela incentiva os meninos e meninas a buscarem fazer por merecer na vida, deixando implícito que caridade é para os fracos. Gray já estava trabalhando bem a temática, e a cena acaba saindo como uma tentativa óbvia e desnecessária de conectar o filme com a atualidade, algo que o restante do roteiro já fazia bem.

O momento reforça, porém, uma verdade de Armageddon Time. Gray está lidando com vários temas delicados e não tem resposta para todos eles. Sua proposta, porém, não é providenciar respostas. "Eu não tenho a menor ideia de como resolver problemas de desigualdade, de classe. Não sei como resolver nada disso," ele admitiu. "Eu não sinto que meu trabalho como cineasta é dar uma resposta para o mundo [...], nós estamos aqui para propor perguntas."

As perguntas de Armageddon Time são feitas de um ponto de vista muito honesto, um que não tem medo de admitir erros cometidos no caminho, mas que vê na arte uma maneira de lidar com isso tudo. Essa abordagem menos romântica da própria infância e da descoberta do mundo talvez custe ao filme e Gray uma chance de concorrer ao Oscar - algo que ambos Anderson e Branagh fizeram ano passado - porque não há, aqui, uma transformação da realidade em sonho. Pelo contrário, Gray busca acabar o devaneio. Talvez essa experiência, assim como os comentários políticos, sejam demais para uma Academia que muitas vezes busca fugir de questões mais pontiagudas, mas é exatamente onde Armageddon Time encontra sua excelência.

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