Armas pela vida? Delírio bolsonarista sofre derrota no 1º round no Congresso

Como a distribuição de mais armas pode, de alguma forma, minimizar a matança comparável apenas aos países em guerra civil?

Apoiadores do governo Bolsonaro tentaram levantar no Twitter, na terça-feira, dia 19, a hashtag #ArmasPelaVida.

Como alertou um amigo dos tempos da faculdade, aguçado observador da cena política, o lema equivale a defender pautas como #ColesterolAltoPelaSaúde - ou, digo mais, associar #VenenoNaComidaPeloBemEstar, #SedentarismoNaOlimpíada, #GasolinaNoHidranteDeIncêndio.

De tempos em tempos, quase sempre, lembramos por aqui que os tempos não têm sido generosos para a racionalidade, e as contradições em termos acabam passando batidas em meio à ânsia em defender posições ideológicas, por mais fajutas que sejam.

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O esforço em levantar a bandeira pró-armamentos coincidiu com a data em que o Plenário do Senado barrou uma dos maiores delírios propostos pelo governo e, por 47 votos a 28, derrubou o decreto do presidente Jair Bolsonaro, que busca flexibilizar a posse e o porte de armas no Brasil.

O decreto autorizava a concessão de porte a 20 categorias profissionais, inclusive jornalistas em áreas de conflito, e aumentava de 50 para 5 mil o número de munições que poderia ser comprada por cada proprietário de arma de fogo.

A bola agora está nas mãos dos deputados.

O debate, como não poderia deixar de ser, foi intenso, e mobilizou mais 20 senadores na tribuna.

Metade defendia a validade do decreto, rejeitada pela maioria dos brasileiros adultos (64%), de acordo com uma pesquisa Datafolha divulgada em abril (em agosto de 2018, a rejeição era de 58%).

A maioria dos senadores entendeu que as mudanças na legislação de armas precisam ser enviadas pelo Executivo ao Congresso por meio de projeto de lei – em outras palavras, Bolsonaro não pode governar por decreto.

“É um escárnio com a população brasileira. Esse decreto não vai proteger nenhum de nós. Arme os policiais, treine os policiais, presidente”, afirmou a senadora Kátia Abreu (PDT-TO), lembrando que mais de 120 mil vidas foram poupadas no país desde a sanção do Estatuto do Desarmamento, há 16 anos.

“Mais armas é mais armas chegando de forma fácil na mão do bandido. Violência gera violência”, discursou a senadora Eliziane Gama (Cidadania -MA).

Em setembro de 2018, uma pesquisa Datafolha mostrou que a violência era a principal preocupação de dois entre dez eleitores brasileiros – dois meses antes, o índice era de 9%.

A discussão sobre o enfrentamento da criminalidade é complexa e, muitas vezes, tomada por paixões.

Para quem tem interesse em se aprofundar sobre o tema para além das hashtags de Twitter, vale conferir o documentário “Relatos do Front”, em cartaz em diversas cidades do país.

O filme faz um diagnóstico da fábrica de criação de inimigos instalada no Brasil desde a chegada da família real, no século 19, e que atravessa temas como a escravidão, a desigualdade, a guerra às drogas, a política de enfrentamento que dá muitos votos e poucos resultados, a ausência de articulação entre forças policiais, o excesso de ações e a escassez de inteligência do setor de segurança – enfim, uma carnificina que vitima populações periféricas e agentes do Estado aos montes.

Para isso, o diretor, Renato Martins, mostra o nome, o rosto, e a história das pessoas executadas pelo nosso atavismo diário com bases históricas, entre elas a vereadora Marielle Franco.

Fica a pergunta: como a distribuição de mais armas pode, de alguma forma, minimizar a matança comparável apenas aos países em guerra civil?

No Brasil, vale lembrar, as mortes por armas de fogo saltaram de 27,3 mil em 1990 para os 43,2 mil em 2016. Após 2000, porém, houve redução no índice, que manteve sua estabilidade desde o Estatuto do Desarmamento.

Segundo o Mapa da Violência, o Estatuto foi responsável por poupar 160.036 vidas desde sua sanção pelo presidente Lula, em 2003.

Com exceção das fabricantes, não há, nas pesquisas, qualquer apontamento sobre quem pode lucrar com a flexibilização da posse e do porte de armas no país.

A votação no Senado mostra que Bolsonaro não terá vida fácil para governar através de decretos – sobretudo os que incidem sobre temas tão sensíveis, como armamento.

Antevendo a derrota, ele prometeu que não fará nada caso a proposta fosse derrotada pelo Congresso. “Eu não sou ditador, sou democrata, pô”, declarou.

A racionalidade agradece.