Arqueólogos reconstroem massacre de judeus na Idade Média

SÃO CARLOS, SP (FOLHAPRESS) - Análises de DNA de esqueletos achados dentro de um antigo poço no Reino Unido ajudaram arqueólogos a reconstruir um brutal ataque à comunidade judaica durante a Idade Média. O genoma das pessoas assassinadas também é a mais antiga pista sobre a história genética dos judeus, reforçando sua ligação com o Oriente Médio e mostrando que eles já tinham várias das características típicas de seu DNA hoje.

"Fazia mais de 12 anos que estávamos tentando descobrir quem eram essas pessoas, e a tecnologia finalmente agora está à altura do que desejávamos fazer", declarou o geneticista Ian Barnes, do Museu de História Natural de Londres, em comunicado oficial. Ele é o coordenador da equipe responsável pelas análises, cujos achados foram publicados recentemente na revista científica Current Biology.

As descobertas são ainda mais significativas porque vêm da cidade inglesa de Norwich, a 160 km de Londres. Ocorreu em Norwich, no ano de 1144, o primeiro registro de uma lenda antissemita que turbinaria a perseguição a comunidades judaicas dentro e fora da Inglaterra por séculos.

Nesse ano, os judeus da cidade foram acusados injustamente de ter feito um ritual para matar um menino chamado William, cujo corpo, com marcas de esfaqueamento, foi encontrado na floresta. O assassinato acabaria inspirando a lenda do chamado libelo de sangue, segundo o qual os judeus usariam o sangue de crianças cristãs para fins de magia negra.

Acontece que os corpos achados no poço de Norwich, correspondentes a pelo menos 17 pessoas e incluindo várias crianças, parecem ter sido jogados de uma vez só no buraco, e datações dos restos mortais indicam que isso aconteceu entre os séculos 11 e 12, mais ou menos na época em que a lenda do libelo de sangue começou a circular. Por fim, o poço ficava perto do bairro judeu da cidade na Idade Média.

Todas as pistas pareciam convergir, o que levou os pesquisadores a propor que os assassinatos teriam acontecido em 1190. Nesse ano, uma nova onda de violência se abateu sobre a comunidade judaica de Norwich, ocasionada pelo início da Terceira Cruzada (essas expedições militares frequentemente eram acompanhadas por massacres antissemitas, porque os judeus eram considerados inimigos de Cristo, tal como os muçulmanos).

Faltavam, porém, conseguir informações mais detalhadas sobre a identidade das vítimas. Os pesquisadores obtiveram DNA mais completo de seis dos indivíduos jogados no poço, demonstrando, em primeiro lugar, que três deles, do sexo feminino —uma adulta jovem, uma menina com idade entre 10 anos e 15 anos e outra que tinha entre 5 anos e 10 anos— eram irmãs. Outro dos defuntos tinha parentesco mais distante com as três. O genoma deles indica ainda a ocorrência de casamentos entre parentes relativamente próximos naquela comunidade.

O passo final foi tentar identificar a que grupo étnico pertenciam as vítimas. Para isso, os geneticistas britânicos usaram uma série de técnicas engenhosas. Apostando que os assassinados em Norwich pertenciam ao subgrupo que daria origem aos judeus asquenazes (basicamente os da Europa Central e Oriental até o século 20), eles usaram técnicas estatísticas para estimar se os asquenazes atuais poderiam descender de pessoas com os genomas dos assassinados em Norwich. Estimaram também se o subgrupo judaico poderia descender de uma mistura de outras populações, como judeus turcos (que não são asquenazes), sicilianos, franceses e poloneses.

O resultado não poderia ser mais retumbante: a ancestralidade que mais bate com a dos asquenazes atuais é a dos mortos da cidade inglesa. É claro que muitos deles não tiveram filhos, mas seus parentes que escaparam dos massacres na Inglaterra e em outros lugares da Europa conseguiram se reproduzir e deixaram descendentes até hoje. Além disso, uma série de marcadores do DNA das vítimas correspondem a uma origem no Oriente Médio, o que é exatamente o esperado para a população fundadora dos judeus europeus, que deixou a região dos atuais Israel e Palestina nos primeiros séculos do Império Romano.

A análise mostrou ainda que o DNA dos judeus medievais já era caracterizado por um aumento da frequência de certas variantes genéticas ligadas a doenças hereditárias, um problema que ainda afeta as comunidades judaicas atuais. Isso se dá porque o histórico de perseguições, massacres e preconceito fez com que essas populações fossem relativamente pequenas e fechadas no passado, com casamentos consanguíneos que tendem a concentrar essas variantes.

No entanto, o detalhe mais pungente do estudo foi a decodificação da aparência de uma das vítimas, um menino que não passava dos 3 anos de vida quando assassinado. Ao que tudo indica, era um garoto de olhos azuis e cabelos ruivos —características que textos medievais associavam aos judeus, em especial no que diz respeito à cor dos cabelos.