Arquidiocese de SP cria comissão para apurar denúncias de abuso sexual e pedofilia

Guilherme Caetano
O arcebispo de São Paulo, dom Odilo Scherer, celebrou uma missa em homenagem às vítimas do desabamento de présio

SÃO PAULO —A Arquidiocese de São Paulo anunciou nesta quinta-feira a criação de umacomissão para cuidar de eventuais crimes de abuso sexual, dentro de suacircunscrição. O novo órgão, que inicia seus trabalhos em 8 de março, vaifuncionar como uma espécie de ouvidoria para facilitar a denúncia dos delitos eserá coordenado por pelo menos oito membros, entre padres, teólogos, psicólogose advogados.

A Comissão Arquidiocesana para a Aplicação doMotu Proprio "Vox Estis Lux Mundi" ("Vós Sois a Luz doMundo") é uma determinação do Vaticano. O papa Francisco promulgou umalei, em 7 de maio de 2019, obrigando todas as dioceses do mundo a instituírem"organismos estáveis e acessíveis, encarregados de prevenir tais abusos ede receber eventuais denúncias a respeito". O prazo dado pelo pontífice foijunho de 2020.

O papa já tinha anunciado, no fim da cúpulasobre pedofilia, em fevereiro de 2019, sua intenção de publicar um Motu Propriocom novas diretrizes para enfrentar denúncias de abuso sexual. As medidasinstituíam a obrigação de denúncia penal de todo o tipo de crime sexual naIgreja. A única exceção é quando a descoberta do crime for feita por meio deconfissão eclesiástica. Também ficou determinado que “seja removido de seuscargos o condenado por ter abuso de um menor ou de uma pessoa vulnerável”.

— Há muitos anos, essesabusos ou esses escândalos de abusos sexuais vêm à tona e causam enorme mal àprópria Igreja, além do mal já causado às vítimas. Portanto, danos àcredibilidade da Igreja — afirmou o arcebispo de São Paulo, dom OdiloScherer, encarregado de instituir a comissão.

Ele disse haver uma enorme dificuldade em sechegar à verificação dos casos, já que "muitas vezes são questões feitasentre quatro paredes", mas considerou a medida um avanço.

— É um esforço ulterior para asuperação de um problema que está aí e que requer um enorme esforço de mudançade cultura, de postura. Isso não atinge só clérigos. Um grande número de abusossexuais não acontece só com clérigos. Nós tentamos assumir as nossasresponsabilidades, mas nem sempre é fácil —declarou Scherer.

A comissão vai se reunir a cadaduas semanas para avaliar as denúncias recebidas, que deverão ser informadas aoarcebispo pelo coordenador. Além disso, precisará promover auxílio pastoral epsicológico às vítimas e dar transparência sobre o encaminhamento do processo.

Scherer afirmou que, apesar dadeterminação recente da Igreja Católica, a arquidiocese já vinha trabalhandocontra os crimes. O arcebispo disse que vários padres foram afastados nosúltimos anos, em razão de denúncias de abuso sexual e pedofilia, mas não deumaiores detalhes. Declarou também que o objeto da investigação interna seráapenas clérigos e religiosos, e não demais membros da comunidade católica.

— É de todo cidadão, que temciência de um crime, fazer uma denúncia, sob pena de ser consideradoconveniente. Isso vale para os clérigos também.