Arrastada e sem discursos memoráveis, cerimônia do Oscar é salva por surpresa final

Steve Martin (esq.) e Chris Rock se apresentam na cerimônia do Oscar. Foto: AP/Chris Pizzello

Por Diego Olivares

Entra ano, sai ano e é a mesma coisa. A Academia promete que vai se esforçar para fazer uma cerimônia mais ágil e apresentar algumas cartas na manga para segurar a audiência, mas acaba fugindo muito pouco da fórmula padrão. Nem a ausência de um mestre de cerimônias foi novidade, já que repetiu o ocorrido no ano passado e compromete a personalidade que a presença de um anfitrião oficial acabava por imprimir ao evento.

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A transmissão até que começou bem, com um número musical da cantora e atriz Janelle Monáe, no qual dançarinos vestiam figurinos inspirados em alguns dos filmes indicados, como ‘Coringa’ e ‘1917’, e até de produções que não foram lembrados nas nomeações, caso de ‘Nós’ e ‘Midsommar - O Mal Não Espera a Noite’.

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Janelle aproveitou o microfone para parabenizar as mulheres diretoras (cutucada no fato de nenhuma delas estar concorrendo ao prêmio de melhor direção) e se disse feliz por ser uma artista negra e LGBT e estar ali naquele momento.

Durante toda a noite, a impressão é que a Academia tentou fazer um mea-culpa, abrindo espaço para convidados falarem sobre diversidade, mesmo que os indicados desta edição não fossem exatamente um exemplo disso. Num dado momento, o ator de ascendência indiana Utkarsh Ambudka foi ao palco para recapitular a premiação em formato de rap, e aproveitou para mandar um recado: “Mantenham a mente aberta. Tenho certeza que vocês vão descobrir que há muita luz aqui, para todos nós brilharmos”.

Festa em banho-maria

Se esse tipo de escolha seguiu alguma lógica, foi difícil de encontrar a linha de raciocínio dos produtores que bolaram uma aparição surpresa de Eminem, mantida em segredo até então. O rapper surgiu do nada após um clipe relembrando grandes canções de filmes marcantes da história do cinema, e cantou ‘Lose Yourself’, vencedora do Oscar há dezessete anos, trilha sonora de ‘8 Mile’. A plateia, em choque, demorou para entender o que estava acontecendo.

Mais perto do final da cerimônia, a cantora Billie Elish cantou a música ‘Yesterday’, dos Beatles, durante o segmento que homenageia os artistas falecidos entre a última edição e essa. Convidada após ter sido a sensação do Grammy 2020, a jovem entrou com a festa já caminhando para o final, e sua interpretação foi um tanto quanto fria, dando a impressão que tudo estava se arrastando. 

Quem esperava por discursos grandiosos por parte dos vencedores pode ter se decepcionado. Foram poucas tiradas bem-humoradas e astros como Brad Pitt, vencedor do Oscar de melhor ator coadjuvante, por mais emocionados que estivessem, pouco fugiram do protocolar.

Uma das exceções foi Joaquin Phoenix, premiado por ‘Coringa’. Apesar de bem-intencionado ao falar de como a humanidade alcança seus melhores feitos quando é movida pelo amor, e essa seria a chave para solucionar os problemas da atualidade, ele estava claramente pouco confortável ali.

O final feliz com ‘Parasita’

A noite, enfim, foi salva pela vitória de ‘Parasita’, um momento por si só histórico por ser a primeira vez que uma produção de língua não-inglesa levou para casa o Oscar de melhor filme. 

Nas quatro vezes que subiu ao palco, sempre acompanhado de sua fiel tradutora, o diretor sul-coreano Bong Joon-Ho esbanjou carisma. “Agora posso pensar em beber”, disse ele, ao agradecer pelo troféu de melhor filme internacional. Mal sabia que ainda voltaria a ser consagrado nas duas categorias mais importantes.

Ao ser corado o melhor diretor, reverenciou Scorsese (o que fez o autor de ‘O Irlandês’ ser aplaudido de pé) e Quentin Tarantino, seus concorrentes. Ao ganhar o prêmio derradeiro, deixou a equipe do filme falar. Quando a organização baixou as luzes, dando a deixa para que o time de ‘Parasita’ encerrasse sua fala, coube ao público exigir que a iluminação voltasse, para que o discurso dos vencedores pudesse ser completado.

Não é qualquer dia que você vê os maiores nomes de Hollywood, donos de alguns dos maiores egos do planeta, dispostos a consagrar e escutar o que estrangeiros têm a dizer. Uma cena bastante emblemática, que fez a maioria dos telespectadores ao redor do mundo, ao final de três horas e meia de evento, ir para a cama feliz.