Arrecadação de direitos autorais da música bate recorde no Reino Unido, mas uma tempestade ainda vem aí

O cantor inglês Ed Sheeran, em show no Rio de Janeiro, em 2017

RIO - Os músicos e compositores no Reino Unido receberam uma quantia recorde em royalties no ano passado, mas a perda dos rendimentos com a música ao vivo representa uma grande ameaça à renda em 2020, alerta a BBC em reportagem publicada nesta quinta-feira. O texto cita dados do PRS for Music, órgão que garante que 145 mil compositores e editoras do Reino Unido sejam pagos quando suas músicas forem executadas em todo o mundo.

Segundo a reportagem, a organização arrecadou um recorde de 810 milhões de libras em 2019 — um aumento de 8,7% em relação a 2018 —, mas prevê que o impacto da pandemia de Covid-19 resultará em um "declínio inevitável" em 2020 e 2021. À BBC, a executiva-chefe da PRS for Music Andrea Martin disse: "Embora tenhamos tido um ano recorde, sabemos muito bem que estamos em tempos sem precedentes, imprevisíveis."

Andrea avalia que o montante de receitas com música ao vivo e execução pública será afetado não apenas em 2020, mas em 2021, já que os pagamentos internacionais geralmente levam tempo para chegar. "Haverá uma queda", acrescentou ela. "Mas de quanto e em que percentagem... qualquer palpite pode ser tão bom quanto o meu." A crise, acredita a executiva, atingirá com mais força os artistas menos famosos, muitos dos quais já estavam enfrentando dificuldades antes da pandemia.

O PRS processou 18,8 trilhões de ocorrências musiicais no ano passado, incluindo streams, downloads, execuções em rádio e TV e músicas tocadas em bares, clubes, cabeleireiros e casas de shows. Os artistas britânicos contribuíram para muitos dos hits mais tocados do ano, incluindo "I don't care" (de Ed Sheeran com o canadense Justin Bieber), "Someone you loved" (de Lewis Capaldi) e "Don't call me up"(de Mabel) — estes dois últimos novos talentos que receberam a distinção do Brit Awards em fevereiro.

A música ao vivo gerou 54 milhões de libras em royalties, um aumento de 15 milhões de libras em relação a 2018. As receitas foram impulsionadas pelas principais turnês de Spice Girls, Elton John, Ed Sheeran e pelo retorno do festival de Glastonbury após um ano de hiato em 2018. Mas com um verão inteiro de festivais cancelados e dezenas de grandes turnês adiadas para 2021, será impossível repetir esse número no ano que vem.

Na semana passada, a UK Music (grupo que representa politicamente os interesses coletivos da indústria musical britânica) revelou que a contribuição da música ao vivo para a economia britânica deve cair em 2020, de cerca de 1,1 bilhão para 200 milhões de libras, o que seria um golpe "catastrófico" para o negócio. Enquanto isso, a Ivors Academy de compositores previu uma perda de 25 mil libras por membro ao longo de um período de seis meses. A política de isolamento também implica que os compositores perderão os royalties coletados quando suas músicas eram tocadas em lojas, cinemas, pubs, clubes e restaurantes. Em 2019, esse valor foi de 168,2 milhões de libras.

Mas a pandemia também teve um efeito positiivo: os royalties advindos do streaming de música aumentaram 22,1%, para 155 milhões de libras, enquanto o dinheiro gerado pela música em serviços de vídeo sob demanda, como Amazon e Netflix, aumentou 47,5%, para 17,7 milhões de libras. Esses números iniciais sugerem que mais pessoas fizeram assinaturas de streaming no Reino Unido durante o lockdown, o que pode fornecer um pequeno contrapeso às perdas com a proibição da música ao vivo em grandes espaços.

No entanto, é sabido que o dinheiro recebido de plataformas como Spotify, Apple Music e Amazon não é suficiente para manter a carreira de um artista. Tom Gray, da banda indie Gomez, compartilhou recentemente um gráfico mostrando quantos streams os artistas precisam para viver no Reino Unido. No YouTube, uma música teria que ser tocada 7.267 vezes para gerar 8,72 libras — ou uma hora de salário mínimo. No Spotify, o número era de 3.114 streams e, no Apple Music, 1.615 streams.

Essa situação desigual levou à criação de uma campanha, #BrokenRecord, buscando um sistema mais equitativo de distribuição de dinheiro de streaming. Liderada pela Academia Ivors e pelo Sindicato dos Músicos, ela propõe um novo sistema em que a taxa de inscrição é revertida para os artistas que você realmente ouve, em vez de entrar em um grande pote, onde o dinheiro é dividido entre os artistas, privilegiando aqueles com maior percentual de streams.

- É isso que o consumidor deseja - diz Graham Davies, da Academia Ivors, que está pedindo uma revisão apoiada pelo governo.

Enquanto isso, o PRS Emergency Relief Fund levantou mais de 2,1 milhões de libras para ajudar membros que perderam renda como resultado do Covid-19. Andrea Martin diz que 1.600 compositores solicitaram assistência apenas na última semana. Outro fundo de 5 milhões de libras, criado pela organização beneficente Help Musicians, ficou sem dinheiro uma semana depois de ser lançado em março. Já a UK Music pediu posteriormente ao governo que criasse uma nova força-tarefa para reavivar a indústria da música enquanto navega na pandemia.