Arriscando serem isoladas da sociedade, número crescente de meninas em Serra Leoa resiste à mutilação genital

Quando os resultados do exame final do ensino médio de Seio Bangura chegaram há pouco tempo, ela descobriu que tinha tirado notas altas o suficiente para entrar na faculdade. Foi um momento emocionante para essa filha de agricultores que nunca terminaram o ensino fundamental. Bangura, porém, não está fazendo planos para a universidade. Em vez disso, ela passa a maior parte dos dias sentada em um banco, observando os outros irem para a aula ou para o trabalho.

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Bangura, de 18 anos, saiu de casa há quase cinco anos, depois que seus pais lhe deram uma escolha: ser iniciada em uma cerimônia de circuncisão feminina, ou ir embora. A cerimônia permite a entrada no bondo, ou “a sociedade”, um termo para os grupos baseados em gênero e etnia que controlam grande parte da vida em Serra Leoa.

— Minha mãe disse: "Se você não vai fazer o bondo, você tem que ir" — relembrou Bangura, com sua voz baixa, mas seu queixo desafiadoramente levantado.

A escolha levou ao corte do apoio financeiro de sua família e a deixou incapaz de pagar por seus estudos ou se casar.

Por mais de duas décadas, tem havido um esforço em todo o mundo em desenvolvimento para acabar com a mutilação genital feminina, ou seja, a retirada do clitóris e toda parte externa da vagina, um ritual secular ligado a ideias de pureza sexual, obediência e controle. Hoje, Serra Leoa é um dos poucos países da África Subsaariana que não o proibiu. O corte ainda é praticado por quase todos os grupos étnicos em todas as regiões do país, mas a prática está agora no centro de um intenso debate.

Grupos progressistas, muitos apoiados por organizações internacionais, estão pressionando para proibir a prática, enquanto as forças conservadoras dizem que é uma parte essencial da cultura que é praticada em linhas tribais e religiosas.

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À medida que essa batalha se desenrola na mídia e no Parlamento, um número crescente de meninas e mulheres jovens como Bangura está lidando com o assunto com suas próprias mãos. Um ato de desafio, que, há uma geração atrás, seria quase inimaginável: elas estão se recusando a participar da iniciação, dizendo a suas mães e avós que não se juntarão ao bondo.

Mais de 90% das mulheres com mais de 30 anos em Serra Leoa foram submetidas ao corte genital, em comparação com apenas 61% daquelas de 15 a 19 anos, de acordo com a pesquisa domiciliar mais recente sobre o assunto, realizada pelo Unicef em 2019. A prática é normalmente realizada no início da puberdade, embora existam áreas do país onde é feito em meninas que são muito mais jovens.

Recusar o bondo tem um grande custo social. As mulheres que não aderiram são, por costume, se não por lei, proibidas de se casar; de representar suas comunidades em eventos religiosos ou culturais; de participar de celebrações ou funerais; ou de servir como chefe ou no Parlamento.

Na maioria dos casos, a iniciação envolve a excisão do clitóris e dos pequenos lábios com uma navalha por um membro sênior da sociedade chamado sowei, que não tem treinamento médico, mas acredita-se ser espiritualmente poderoso. A cerimônia é realizada em acampamentos só para mulheres, que antes eram rurais, mas agora ficam às vezes em cidades, conhecidos como o mato do bondo.

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As leis contra a prática tiveram uma aplicação desigual e resultados mistos. Alguns países, como Egito e Etiópia, viram as taxas caírem drasticamente. Mas em outros, como Senegal e Somália, o declínio foi insignificante. Globalmente, o número de meninas em risco de serem mutiladas continua a crescer, porque os países sem leis ou fiscalização contra o corte têm grandes populações jovens e em rápido crescimento.

Embora Serra Leoa tenha uma das maiores taxas da prática do mundo, também é um dos poucos lugares onde o corte apresenta um declínio sustentado, à medida que mais e mais jovens resistem.

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Enquanto grandes organizações internacionais, como Unicef e ONU Mulheres, estão impulsionando o fim do corte, as opiniões de muitas meninas e mulheres jovens estão sendo influenciadas pelo ativismo local. Programas de rádio, outdoors e grupos de teatro itinerantes vêm espalhando a mensagem de que o corte é perigoso, pode causar sérias dificuldades para as mulheres no parto, prejudica sua saúde sexual e viola os direitos humanos.

Defesa da prática

Bangura, que mora com a família de sua amiga Aminata desde que saiu de casa, ouviu a mensagem de que a prática era perigosa de seu pastor na igreja e de um professor na escola. A maioria de suas amigas estava ansiosa para se juntar ao bondo, mas, como ela, algumas estavam hesitantes e discutiram o assunto de maneira privada entre si. Essa é uma mudança significativa em relação aos anos anteriores. Tudo sobre a sociedade deve ser secreto, e se diz que quebrar o tabu de discutir o que acontece lá, incluindo os ritos de iniciação, traz o risco de uma maldição.

O problema, descobriu Bangura, é que a mudança social não acontece de forma rápida ou organizada.

— As pessoas não odeiam seus filhos — disse Chernor Bah, que administra a Purposeful, uma organização de defesa das mulheres na capital do país, Freetown, que trabalha para acabar com a prática. — Elas estão tomando o que percebem como uma decisão racional e no melhor interesse para a vida de seus filhos.

Uma proposta de emenda à Lei dos Direitos da Criança, que está sendo revisada pelo Ministério de Gênero e Assuntos Infantis de Serra Leoa, codificaria o corte como uma “prática prejudicial” e tornaria ilegal realizar o procedimento em meninas menores de 18 anos. Isso é bem menos do que a proibição total que muitos críticos desejam.

Mas o caminho para tornar o procedimento ilegal não é claro. Instituições e indivíduos poderosos continuam a defender a prática — alguns abertamente, outros discretamente — alegando que é uma parte fundamental da cultura e dos valores de Serra Leoa. Essas pessoas muitas vezes reforçam a afirmação dizendo que o movimento anticorte é uma importação ocidental, uma tentativa de corroer os valores tradicionais e um impulso para a promiscuidade.

Políticos que buscam votos muitas vezes se voluntariam para pagar por uma iniciação em massa em uma comunidade – até mesmo aqueles que se opuseram publicamente ao corte –, disse Naasu Fofanah, uma proeminente empresária de Freetown e vice-presidente do progressista Partido da Unidade.

Fofanah disse que há vários anos, quando estava aconselhando um ex-presidente, Ernest Bai Koroma, sobre o assunto, conseguiu persuadir a maioria dos líderes sowei a endossar a proibição de cortar crianças, o que, segundo ela, teria sido um grande passo à frente. Mas ativistas que buscam uma proibição total bloquearam a medida, disse.

A própria Fofanah foi submetida ao corte aos 15 anos e lembra da dor e do choque do procedimento real — sobre o qual não teve nenhum aviso prévio. Mas ela também disse que era, no geral, um ritual positivo e afirmativo.

— Foi uma bela experiência para mim — disse, lembrando-se de sua avó liderando dançarinos em comemoração à sua transição para a feminilidade, e sendo informada “que ninguém nunca vai falar de forma superior com você. Você agora se tornou mulher".

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Não foi difícil conciliar o que foi feito com seu corpo, porque ela sabia que sua mãe, sua avó e suas tias também haviam passado por isso.

— Então você aguenta e fica tipo: "Ok, está feito, vamos seguir em frente"— disse.

Ainda assim, Fofanah, que estudou iniciação bondo para sua tese de mestrado na Universidade de Westminster, na Inglaterra, não levou suas próprias filhas para a iniciação e dispensou uma sobrinha, dizendo que ela “não precisava disso” porque a família tinha recursos suficientes para abrir outros caminhos para ela. No entanto, ela sentiu que uma proibição geral era mal concebida.

— Se estamos dizendo que, quando se trata dessa prática, as mulheres não podem se expressar e dizer: "Tenho 18 anos ou 21 ou 30 anos, é minha cultura, eu vou", onde os direitos humanos se encaixam com meus direitos como mulher? — questionou. — Você está dizendo que não sou capaz de tomar uma decisão informada, de dizer que quero passar por essa prática?

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