Por arrojo ou necessidade, iraquianas viram empresárias em Mossul

Por Raad AL-JAMMAS
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Um Mustafá, uma viúva iraquiana de 27 anos, em sua loja em Mossul, em 28 de novembro de 2018

Sob o jugo dos extremistas, as iraquianas precisavam da autorização do pai ou do marido para tomar iniciativas, mas agora, muitas por necessidade e outras por arrojo, abrem negócios em Mossul, decididas a mudar a mentalidade dominante.

Muito antes de os jihadistas do grupo Estado Islâmico (EI) se apoderarem, em 2014, desta grande cidade do norte do país, os costumes e o conservadorismo já se interpunham em seu caminho.

Os três anos do "califado" autoproclamado pelos extremistas as limitaram ainda mais. Tinham que se cobrir de preto dos pés à cabeça e não podiam sair de casa, nem falar livremente na rua.

Uma loja como a de Um Mustafá nunca teria podido abrir as portas. "Comércio de Um Mustafá e filhos", anunciam as letras vermelhas da fachada de sua loja de secos e molhados.

Vestindo preto em sinal de luto pela morte do marido, executado pelos jihadistas, esta iraquiana de 27 anos já tem uma clientela em seu bairro de Al Faruq, mas não foi fácil.

"A princípio, me olhavam torto, mas como não recebo nenhuma pensão, não tive outra opção que abrir uma loja" para alimentar os filhos, Mustafá, de 6 anos, e Muhaymen, de 4, conta ela à AFP.

- Chefe de família -

No Iraque, mulheres trabalhando não é algo bem visto por todos. Sessenta e seis por cento dos jovens são favoráveis, mas entre os mais velhos, a prática só é aprovada por 42%, segundo uma pesquisa da ONU.

Como consequência disso, apenas 14% das iraquianas trabalham ou procuram emprego ativamente, contra 73% dos homens. No setor privado, representam 2% dos empregados, segundo a mesma fonte.

O nível de desemprego, oficialmente de 10,8% no Iraque, é o mais alto nas províncias que até há pouco estavam em guerra ou sob o controle dos jihadistas, como Nínive, cuja capital é Mossul.

As guerras que devastam o país há quase quatro décadas deixaram centenas de milhares de mortos e inválidos, além de provocar muitos divórcios. Atualmente, em cada dez lares iraquianos, um é chefiado por uma mulher, segundo as Nações Unidas.

Para as mulheres, "Um Mustafá, que teve que se virar sozinha para atender às suas necessidades, deveria ser um modelo a seguir", segundo Adel Zaki, um morador que costuma comprar em sua loja bombons e sucos de frutas.

Dania Salem, formada na faculdade de economia de Mossul, não precisava ganhar dinheiro para sobreviver, mas quando fugiu de Mossul com a família por causa da chegada dos jihadistas, descobriu sua vocação.

Em Erbil, capital do vizinho Curdistão, a jovem de 23 anos trabalhou em uma floricultura, onde a ensinaram a fazer arranjos de flores.

De volta para sua cidade, em agosto passado abriu uma loja e foi um sucesso. "Para mim, era uma forma de reforçar o lugar das mulheres em nossa sociedade em plena transformação desde a liberação" da cidade, há um ano e meio, assegurou à AFP.

- "Um primeiro passo" -

De fato, desde que os jihadistas foram expulsos de Mossul, a cidade vive um boom cultural. Cada vez mais mulheres trabalham ou abrem negócios.

"Esta loja é um primeiro passo e tenho outros projetos para mais tarde", diz Dania.

Para serem empresárias, outras mulheres precisam obrigatoriamente de uma ajuda do Estado, adverte Rim Mohamed, ativista dos direitos das mulheres em Mossul.

"É preciso garantir que seus direitos sociais, a geração de empregos e seu lugar na vida cultural e política", enumera, em declarações à AFP.

Mensagem recebida, garante Jalaf al Hadidi, encarregado do planejamento na assembleia local.

Quando a província de Nínive tiver recebido o bilhão de dólares alocados do orçamento federal, "serão concedidos microcréditos de 5 a 10 milhões de dinares iraquianos (entre 3.700 e 7.300 euros)", principalmente "a jovens, rapazes e moças", promete.