Arroz, feijão e álcool gel: a cesta básica dos cariocas em meio à pandemia de coronavírus

Eduardo Vanini
Abastecimento virou prioridade entre as famílias

Apesar de todas as recomendações sobre não ter necessidade de se estocar alimentos e produtos de limpeza em casa, os cariocas iniciaram, nos últimos dias, uma corrida aos supermercados diante dos aumentos de casos de coronavírus no país. Como resultado, os consumidores tiveram que lidar com filas que chegam facilmente a uma hora de espera nos caixas das redes mais populares e o sumiço de alguns produtos das prateleiras, como o álcool gel.

Habituado a fazer compras mensais, o vigilante João Soares, de 29 anos, foi até um grande supermercado da Rua Siqueira Campos, em Copacabana, para reforçar a despensa com itens como carne e álcool gel.

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Para conseguir o primeiro, precisou enfrentar uma hora de espera até que o estoque fosse reposto. Já em relação ao segundo, acabou deixando o local de mãos vazias.

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— Comprei só álcool 46, porque foi o único que encontrei — relata ele, que mora com três irmãos no Morro da Babilônia e usa com parcimônia os dois vidros de meio litro de álcool gel que conseguiu comprar na sexta-feira passada. — Estava tudo bem confuso, com brigas entre clientes e gente correndo para pegar papel higiênico e papel toalha. Eu comprei só o necessário mesmo, porque vi muita gente levando produtos em grande quantidade que podem faltar para outras pessoas. Não queria fazer o mesmo.

A professora de ginástica Renata Pinto, de 50 anos, foi ao mesmo supermercado. Por lá, fez compras capazes de suprir a demanda da família por duas semanas. Como ela mora com os pais que já têm mais de 80 anos, está empenhada em reduzir as visitas a esses locais e diminuir ainda mais os riscos de contaminação.

— Foquei em comprar produtos que só acho nos supermercados, como arroz, feijão e carne. Se eu precisar de fósforo, por exemplo, consigo comprar na esquina da minha rua —  diz a moradora de Copacabana.

Em casa, Renata  também tomou o cuidado de organizar bem os produtos para evitar que acabem antes da hora:

— Guardei as carnes da primeira semana numa geladeira e as da segunda em outra. Usei a mesma lógica para os produtos que foram para os armários.

A estratégia é válida, segundo a professora do Departamento de Economia Doméstica da Universidade Federal de Viçosa, Ana Lídia Coutinho. Ela reforça que não há risco de falta de alimentos e reitera que compras em excesso significam que determinados produtos podem faltar para outras pessoas, mas recomenda que as pessoas se planejem de maneira mais eficiente.

— Quem estava acostumado a ir toda semana, pode se organizar para ir duas vezes por mês para precisar ir menos a esses locais — sugere. —  E quando for, é importante manter a distância de pelo menos um metro dos demais consumidores, ao circular pelas lojas e entrar nas filas. Outra coisa muito importante é lavar todos os produtos ao chegar em casa, antes de guardá-los.

Pelos corredores dos supermercados também é possível ver que o trauma com a recente crise hídrica ainda atormenta os cariocas. A estudante Jéssica de Sousa comprou quatro fardos de garrafas de 1,5 litro de água mineral hoje pela manhã.

— Achei melhor estocar porque não sei o que vai acontecer. Fiquei com medo de acabar como o álcool gel — disse ela, que mora com o marido no Leme e vai dividir as garrafas com a mãe.

A nutricionista Taissa Müller, do laboratório e clínica Lach, afirma que a presença recorrente de arroz, feijão, ovos e carne na lista básica apresentada pelos cariocas nesses tempos está correta, por garantir aminoácidos especiais e proteínas. Entretanto, ao circular pelos supermercados, ela tem observado uma alta de produtos industrializados nos carrinhos, já que são menos perecíveis.

— Biscoitos recheados e doces devem ser consumidos com parcimônia na quarentena — alerta, pedindo cautela também com as massas e os molhos prontos. — Se todo mundo ficar comendo só macarrão, meu consultório vai ficar lotado quando tudo voltar ao normal. Também recomendo molhos menos processados, como o tomate pelati.