"Vai comprar na Venezuela": resposta-padrão de WhatsApp chegou ao poder

Matheus Pichonelli
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Brazilian President Jair Bolsonaro delivers a speech after holding a meeting with US National Security Advisor Robert O'Brien at Itamaraty Palace in Brasilia, on October 20, 2020. - The United States and Brazil signed three agreements Monday they said would expand and deepen their existing trade deal, the latest bonding moment under Presidents Donald Trump and Jair Bolsonaro. The new protocol adds chapters on facilitating trade, regulatory practices and anti-corruption measures. (Photo by EVARISTO SA / AFP) (Photo by EVARISTO SA/AFP via Getty Images)
O presidente Jair Bolsonaro: Foto: Evaristo Sa /AFP (via Getty Images)

Não faz muito tempo, nos debates entre familiares e amigos, quando alguém perdia a capacidade de argumentar à mesa de jantar, ou do bar, mandava você para algum país que não gostava.

“Vai pra Cuba” ou “vai pra Venezuela” viraram sinônimos de “vai para o inferno” nas rodas que se acreditavam politizadas. Defendeu cota para minorias? Políticas de distribuição de renda? A ampliação do Estado em assuntos estratégicos como produção de petróleo? Vai pra lá, comunista!

Aqui não, diziam os militantes que viam comunismo até no tapete vermelho debaixo da cama.

Houve um tempo em que a palavra final era a confissão em voz alta da ignorância e da indisposição ao debate. Dava preguiça explicar que, veja bem, aqui moramos, queremos uma solução brasileira mesmo para problemas brasileiros, e é plenamente possível defender mais humanidade ou melhores serviços públicos sem perseguir ninguém nem se entronizar no poder.

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Via de regra, a conversa desandava e a pessoa ficava a sós com suas verdades absolutas, pavor de fantasmas externos e clichês a respeito de quase tudo -- clichês que, quando confrontados, logo ganhavam o nome de “sou politicamente incorreto mesmo e não tenho medo de falar a verdade”.

Via de regra (2), era melhor não contrariar.

Até que um dia essa turma decidiu se unir, descobriu pelo WhatsApp que era uma multidão e elegeu um dos seus à Presidência da República.

O novo presidente, uma vez por ano, agora discursa em assembleias gerais da ONU com uma lista de chavões que alimentam todo tipo de paranoia nos grupos do zap.

Não é de se estranhar que ele lance mão do argumento quando confrontado por uma questão específica do país que quer governar.

No fim de semana, em sua tradicional caminhada-aglomeração-pandêmica por Brasília, Jair Bolsonaro se irritou com um cidadão que se queixou do preço do arroz. “Eu não aguento mais”, disse o homem.

Bolsonaro respondeu com um sabão.

“Tu quer que eu baixe na canetada? Você quer que eu tabele? Se você quer que eu tabele, eu tabelo. Mas você vai comprar lá na Venezuela”.

O cidadão-sem-arroz foi embora sem dizer palavra.

Não é a primeira vez que Bolsonaro perde a paciência quando é cobrado no calor das ruas.

Bolsonaro mandou o eleitor para a Venezuela quase dois meses depois de cobrar “patriotismo” dos donos de supermercado para baixarem os preços dos alimentos.

O fato é que ele é responsável pela política econômica e a política econômica é determinante para a vida de quem está na ponta, caso do rapaz preocupado com o preço do arroz.

Em março, o ministro Paulo Guedes disse que o governo precisava fazer “muita besteira” para que o dólar ultrapassasse a barreira de R$ 5. Hoje a moeda americana está cotada em R$ 5,648.

Com a moeda nacional depreciada, grandes compradores internacionais fazem a liquidação por aqui, desabastecendo o mercado interno e pressionando o preço dos alimentos.

Bolsonaro não precisa preço de produto na canetada, mas o sujeito tem razão em reclamar.

Como o tiozão do WhatsApp, quem não tem razão é quem cita a situação de um país em frangalhos para encerrar a conversa e fugir da responsabilidade. Tipo não fazer muita besteira e evitar a escalada do dólar, lembra?

Além de falta de respeito, a resposta ao cidadão é sinal de ignorância. E, partindo de uma autoridade contra um governado, não deixa de ser covardia. Atitude típica de governos que ele jura rejeitar.