Em posse do PCC, arsenal legalizado desmonta falácia armamentista de Bolsonaro

Handgun store shelves. A handgun for sale in the store.
Getty Images

De ontem para hoje, 449 pessoas conseguiram registro de colecionador, atirador esportivo ou caçador no Brasil.

Tem sido assim desde junho de 2019, quando o número de licenças para armamentos do tipo saltou de 167.390 para 605.313.

Os números foram levantados no início do mês pelo Instituto Sou da Paz e pela Globo News por meio da Lei de Acesso a Informações.

O aumento coincide com uma mudança na lei, prometida e entregue pelo governo de Jair Bolsonaro, que permitiu aos atiradores comprar até 60 armas, inclusive as de uso restrito, como fuzis.

Cada proprietário pode adquirir até 180 mil balas por ano –ou seja, tem bala, literalmente, para realizar cerca de 493 disparos diários para desestressar.

Quem observa os dados de longe imagina que o ofício de caçador, autorizado a ostentar até 30 armas, é uma profissão em alta no Brasil e se tornou o motor de uma economia cambaleante. Os alvos nem sempre são animais silvestres.

Armas de caça alvejaram, no começo de junho, o jornalista Dom Phillips e o indigenista Bruno Pereira durante a apuração de uma reportagem no Vale do Javari, no Amazonas.

A possibilidade de ostentar seu próprio arsenal faz de qualquer caçador ou colecionador um exército particular para enfrentar quem bater à sua porta –inclusive o próprio Exército brasileiro.

Na segunda-feira (27), a Polícia Civil apreendeu uma coleção de fuzis, pistolas e até metralhadoras compradas legalmente no mercado e que estavam na mão de pessoas ligadas ao PCC, o Primeiro Comando da Capital.

A apreensão, mostrada pelo Brasil Urgente, da TV Bandeirantes, ocorreu durante o cumprimento de mandados de busca e apreensão em endereços de pessoas ligadas a um traficante chamado João Cabeludo. Ele é suspeito de comandar o tráfico de drogas na região de São José dos Campos (SP) e está foragido.

As armas serviriam para esquentar o dinheiro da facção. Na ação foram apreendidos R$ 60 milhões em joias e automóveis de luxo.

A apreensão é só uma amostra de como grupos criminosos podem se beneficiar do liberou-geral armamentista promovido pelo atual governo. E prova que não tem pé na realidade o mundo imaginário de Bolsonaro e seus apoiadores segundo o qual o acesso facilitado a armas serviria apenas para proteger os cidadãos de bem.

A realidade mostra o exato oposto: essas armas estão apontadas contra os próprios cidadãos e as forças de segurança que deveriam protegê-los.

Aos poucos, essa relação de causa e efeito, cantada e alertada por especialistas, começa a ficar evidente –mais ou menos como a ponta de um iceberg movido a pólvora.

Só no Espírito Santo, 30% das armas utilizadas por criminosos eram legalizadas, segundo um outro levantamento recente da ONG Sou da Paz em parceria com o Instituto Jones dos Santos Neves e a Secretaria da Segurança Pública do estado.

Isso significa que a cada 100 armas periciadas no estado, 30 foram adquiridas por pessoas com documentações em dia e que puderam escolher pagar no crédito, no débito ou em dinheiro vivo o arsenal que logo seria transferido para o crime.

No último fim de semana, dois shoppings de grandes cidades, no Rio de Janeiro e em Campinas (SP), registraram tiroteio entre seguranças e criminosos que não se incomodaram com o fluxo de clientes em um momento de alta movimentação. Eles visavam as joalheiras dos centros comerciais.

Em ambas as ocasiões os criminosos estavam fortemente armados.

No shopping do interior paulista, dois seguranças ficaram feridos. No Rio, um vigilante de 49 anos que fazia bico na noite de sábado em troca de R$ 180 foi alvejado e morreu.

Não se sabe, claro, a origem do armamento utilizado pelos bandos nessas duas ações.

Mas o pânico das famílias devido ao tiroteio na área próxima às praças de alimentação mostra que nenhum brasileiro está mais seguro hoje do que quando era preciso responder a uma série de condicionantes para poder andar armado por aí.

A experiência norte-americana, onde qualquer jovem perturbado pode comprar sua arma e promover massacres nas escolas onde criou inimizades, deveria servir como alerta. Na verdade, serve como inspiração.

Por aqui, não vai demorar para vermos novos assaltos em shoppings, como os do último fim de semana, promovidos com armas adquiridas legalmente na loja vizinha.

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