Arte transforma vidas no Jacarezinho, comunidade que viveu operação mais letal do Rio

·8 minuto de leitura

RIO — Era abril de 2010 quando uma menina, então com 9 anos de idade, moradora do Jacarezinho, começou no seu primeiro dia de aula no projeto social de arte e educação denominado Eu Sou. Em um diálogo curto e profundo, o idealizador da ONG, Hélio Rodrigues, disse que achava que ela iria gostar de arte. A menina, porém, retrucou afirmando que já sabia o que queria ser quando crescesse. “Mulher de bandido”, declarou, em sua inocência. Rodrigues então contou a ela que ele mesmo já havia mudado de ideia muitas vezes e que a arte tem o poder de criar diferentes caminhos. Três aulas depois, os dois se reencontraram, e a menina mostrou na prática que o arte-educador estava certo. “Tio, lembra aquele dia que a gente ficou amigo? Já sei o que eu quero ser: professora de arte”, afirmou a criança.

Leia mais: Após oficinas de percussão e confecção de instrumentos musicais, ONG quer formar orquestra no Morro dos Macacos

“Tiro mata, arte salva”, refletiu Rodrigues ao lembrar o diálogo com a pequena aluna, mais de uma década depois, em um post que escreveu em uma rede social. A postagem foi feita no último 7 de maio, um dia após a operação da Polícia Civil no Jacarezinho contra o tráfico de drogas que resultou num massacre: 28 mortos, incluindo um policial civil.

A reflexão que a mensagem provocou nele próprio e em muitos usuários que comentaram e compartilharam foi a mesma que o impulsionou a criar a ONG que atua na comunidade há cerca de 16 anos. Artista plástico por formação, Rodrigues queria ajudar crianças e adolescentes a terem o poder de escolher o que gostariam de ser, e assim terem uma identidade. Recentemente, o projeto Eu Sou também mudou. Tornou-se Asas, e, fundamentado na arte e na educação, oferece aulas gratuitas de arte para crianças e adolescentes e de monitoria de arte para adultos. Além de contar com o programa Jovem Aprendiz, que este ano foi ampliado. No total, a ONG tem cerca de 220 alunos.

— A ideia é mais do que plantar a semente da mudança, é continuar auxiliando os participantes até pelo menos o início da vida adulta —explica Rodrigues. — Sendo bem franco, na comunidade crianças e adolescentes têm dois caminhos: o tráfico ou a igreja. O tráfico transmite um falso poder. A arte empodera de verdade e proporciona um mundo de possibilidades.

Esse mundo se abriu para Andreza Arruda, de 34 anos, que, assim como a menina de 9 anos, não enxergava, em suas palavras, além do território onde vivia. Natural de Glória do Goita, interior de Pernambuco, Andreza foi morar no Jacarezinho em 2006 e conheceu a ONG dez anos depois. Nela, foi aluna da formação de professores e atualmente é arte-educadora no projeto.

—Trabalhava como auxiliar de serviços gerais em uma fábrica que faliu. Saí sem nada, quando conheci o projeto e a arte me acolheu. Foi um divisor de águas na minha vida, inclusive na minha família. O projeto é um lugar onde a criança pode ser criança, sem censuras — afirma.

Além de ensinar seus alunos, ela auxilia as duas filhas, Andressa, de 13 anos, e Adrielle, de 9, e dois sobrinhos. Outros três sobrinhos da arte-educadora também já participaram do projeto.

A primeira a ingressar na ONG foi a filha mais velha, também em 2016. Um dos frutos que a adolescente colheu por meio da arte, segundo a mãe, foi a aprovação no Colégio Pedro II.

— Antes, a Andressa estudava em um Ciep. As pessoas sempre me perguntam se ela foi aprovada por sorteio. Mas não, ela fez prova. Acho que é uma possibilidade que não existe para quem vive entre tantos conflitos. A arte traz reflexões para que possamos fazer escolhas conscientes — avalia Andreza.

Juntas como professora e aluna no antigo Eu Sou e atual Asas, Andreza e Andressa já participaram de várias atividades, como a exposição “Assim me vejo”, na Casa França-Brasil, em 2019. Recentemente, mãe e filha apresentaram trabalhos na mostra virtual “Me isola que eu crio”, que está na sua quinta edição. Eles estão disponíveis no site do projeto.

A adolescente conta que essa exposição serviu como um escape na quarentena.

— Consegui desabafar e expressar as minhas emoções. A arte já faz parte de mim, e eu posso criar de várias maneiras. Até eu mesma posso ser a própria arte. Ela me faz querer ir atrás dos meus ideais — afirma Andressa, que quer ser designer de moda.

Irmã de vítima sonha virar bailarina

Da mesma idade de Andressa, 13 anos, a irmã de um dos mortos na operação do Jacarezinho também teve a vida impactada por uma ONG que atua na comunidade. A adolescente, que preferiu não ser identificada, falou sobre a importância da Viva Jacarezinho, na qual faz aulas de balé clássico há um ano:

— Tem um papel essencial na comunidade porque ajuda as crianças e os adolescentes a descobrirem o talento que têm, seja ele para dança, luta ou o mundo da arte, e assim os afasta do crime. Na minha vida ajudou bastante, porque foi por meio do Viva Jacarezinho que eu descobri o meu amor pelo balé clássico. Hoje sonho ser uma bailarina profissional.

A ONG atua na comunidade há 14 anos, com foco em qualificação profissional, bem-estar e qualidade de vida para os moradores. Além de aulas de dança e esporte, a Viva Jacarezinho oferece cursos de inglês e informática e profissionalizantes como gastronomia, cuidador de idosos, maqueiro e design de sobrancelhas. O projeto atua ainda na socialização de dependentes químicos.

À frente da ONG, Elias de Lima Junior, mais conhecido como Junior, de 46 anos, foi o primeiro a ser impactado pela Viva Jacarezinho. O líder comunitário era viciado em drogas quando foi ajudado por um outro projeto social, este feito pela Igreja Adventista do Sétimo Dia, da qual ele passou a fazer parte desde então.

— Comecei a me envolver com a programação e os eventos da igreja e a não precisar mais ficar internado. E assim como fui ajudado, quis retribuir auxiliando outras pessoas. Em parceria com a igreja, comecei um trabalho social na rua, envolvendo em média 300 pessoas. Ajudamos com documentos, cestas básicas, sopão. E depois surgiu a oportunidade de colocar o Viva Jacarezinho para funcionar — relembra Junior, contando que no início a ONG atuava numa garagem e depois conseguiu um prédio da prefeitura, onde pôde oferecer mais atendimentos e cursos à comunidade.

Atualmente, a ONG tem cerca de 500 alunos. Durante a pandemia, foram distribuídos 1.500 frascos de álcool em gel e mais de cinco mil máscaras, além de mais de dez toneladas de peixe. Anualmente, quase quatro mil pessoas são ajudadasd.

Outro projeto social, este criado mais recentemente, mas que já tem feito a diferença na comunidade, é o Nica Jacarezinho, um núcleo independente comunitário de aprendizagem. Fundada em 2019, a iniciativa foi idealizada anos antes por Joel Luiz Costa, que viu sua avó Nica falecer analfabeta. Desde então, ele sentiu uma grande vontade de criar um núcleo educacional na favela onde nasceu, com o objetivo de oferecer alfabetização de adultos.

No entanto, por não ser da área educacional, ele tinha dificuldade em desenvolver o projeto. No fim de 2018, Costa encontrou um grupo de professores no Jacarezinho que estava querendo iniciar um pré-vestibular comunitário. Ele já contava com o espaço, mas não com profissionais. Já os professores tinham a ideia, mas não o espaço. Então, a partir da união do grupo com Costa, o Nica se tornou um pré-vestibular comunitário, em janeiro de 2019.

Diego Gomes foi um dos primeiros alunos. Ele estudou de fevereiro até novembro de 2019 no pré-vestibular do núcleo e conseguiu uma vaga no curso que queria, Administração, na Uerj.

— Tinha acabado de vim de um ensino público sucateado e não obtive uma boa nota no enem, então decidi investir nos estudos. Foi um período difícil pois eu tinha que conciliar a carga horária do pré-vestibular com o trabalho, para ajudar em casa. Além de auxiliar alunos que não teriam condições de estudar em uma faculdade, o Nica oferece ao aluno a liberdade de conhecimento, um pensamento crítico sobre a sociedade. Rompe uma barreira muito grande que o estado nos impõe. Fez muita diferença na minha vida pois sou o primeiro da minha família a fazer uma faculdade — detalha.

O pré-vestibular é o carro-chefe do Nica, mas já foram realizados colônia de férias para as crianças da comunidade, cineclubes e fóruns de educação comunitária e favela, além de existir parceria com a Agremiação Unidos do Jacarezinho para realização de atividades.

O Nica é uma das instituições criadoras do Jaca contra o Corona, que foi responsável pela doação de mais de três mil cestas básicas durante todo o período pandêmico no ano de 2020, ao lado de outras instituições que atuam no local.

A ONG está trabalhando agora na criação de um núcleo de saúde em parceria com a Clínica da Família do Jacarezinho, numa biblioteca afrorreferenciada, na implementação de reforço escolar para crianças dos ensinos fundamental I e II e na alfabetização de adultos. Todos os projetos estão previstos para o segundo semestre deste ano.

SIGA O GLOBO-BAIRROS NO TWITTER (OGlobo_Bairros)

Nosso objetivo é criar um lugar seguro e atraente onde usuários possam se conectar uns com os outros baseados em interesses e paixões. Para melhorar a experiência de participantes da comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários de artigos