Arthur Lira dá o caminho, desbanca Guedes e vira 'Posto Ipiranga real' de Bolsonaro

Brazilian President Jair Bolsonaro (R) and Lower House President Arthur Lira talk during the opening of the XXIII March in Defence of Municipalities in Brasilia, on April 26, 2022. - Bolsonaro on April 25 defended his decision to grant a pardon to a controversial ally convicted of attacking democratic institutions, saying
O presidente da Câmara Arthur Lira (PP-AL) conversa com Jair Bolsonaro (R) durante evento em Brasília Foto: Evaristo Sá/AFP (via Getty Images)

Posto Ipiranga virou o apelido de Paulo Guedes antes mesmo da eleição de Jair Bolsonaro em 2018.

A metáfora fazia alusão a uma peça publicitária da rede de combustíveis em que um capiau orientava a quem lhe pedia informações à beira da estrada para que buscassem todas as respostas sobre produtos e serviços em uma unidade dos postos logo à frente. Lá quem estivesse perdido encontraria de tudo.

Bolsonaro sempre admitiu que não entende bulhufas de economia.

E prometia que seu superministro para assuntos econômicos seria um guia para onde seguiriam todas as saídas e respostas do governo.

Não foi exatamente o que aconteceu.

Cria da Escola de Chicago, a meca do liberalismo nos EUA, Paulo Guedes foi aos poucos entendendo que para sobreviver no governo era preciso rasgar um pouco a cada dia a cartilha de seus professores.

Ao longo da administração, ele perdeu seus braços direito e esquerdo entre integrantes de sua equipe menos dispostos a ceder aos apelos intervencionistas do presidente e das alas militares e políticas do governo.

Não faltou muito para o Posto Ipiranga se transformar em um personagem famoso do filme “Monty Python em busca do Cálice Sagrado”: o soldado das Cruzadas que teve pernas e braços cortados e ainda seguia chamando o algoz para a briga.

Uma perna do seu liberalismo à brasileira foi arrancada com as PEC dos Precatórios.

Outra com as medidas para conter o preço da gasolina, com constantes trocas no comando na Petrobras.

Os braços foram decepados agora com a aprovação da PEC Kamikaze.

O ministro da Economia que prometia colocar as contas do governo em dia precisou engolir o projeto que jogou no limbo os compromissos fiscais do país para que seu chefe tenha mais chances de ser reeleito em outubro.

Para isso, o Congresso colocou o país em estado de emergência para poder furar o teto de gastos, ampliar o Auxilio Brasil para R$ 600 e o auxílio-gás e distribuir benesses a caminhoneiros. Os gastos estimados são de R$ 40 bilhões.

Nem a oposição teve coragem de melar a votação. No auge da crise econômica, ninguém quis arcar com os custos eleitorais de votar contra uma medida que, mesmo a curto prazo, vai reforçar o orçamento doméstico de quem hoje passa aperto –mesmo que a PEC sirva para turbinar um candidato à reeleição que em 2000 foi o único a votar contra o Fundo de Combate à Pobreza.

Bolsonaro tem uma coleção de declarações contra programas e políticas de distribuição de renda, que ele já chamou de “Bolsa Farelo” e “voto de cabresto”. Tudo agora é coisa do passado.

Vale tudo, inclusive engolir as próprias convicções, para diminuir a vantagem apontada nas pesquisas de intenção de voto a favor do ex-presidente Lula (PT).

Para isso, Bolsonaro precisou de um novo Posto Ipiranga, a quem entregou as chaves do orçamento e a decisão de tomar o caminho que for necessário para chegarem vivos, e juntos, na disputa eleitoral. O Posto Ipiranga agora atende pelo nome de Arthur Lira (PP-AL).

Foi o presidente da Câmara, afinal, quem deu o caminho das pedras e dos atalhos do regimento interno para abrir o cofre do orçamento e fazê-lo jorrar no solo das eleições. O deputado e líder do centrão fez o que pode, inclusive permitir votação a distância, para que a emenda constitucional passasse com maioria dos votos.

Se conseguir sair da lona a partir de agosto, quando os benefícios começam a pingar no bolso dos eleitores, é a Lira que Bolsonaro terá de erguer uma estátua em homenagem.

Após três anos e meio de governo, Guedes é uma figura cada vez mais decorativa em um governo que prometia ser liberal na economia e conservador nos costumes. Ali quem manda prender ou soltar agora é o Centrão de Arthur Lira. É ali que Bolsonaro para e pergunta aonde vai toda vez que está perdido na estrada.

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