Teatral, articulação de Bolsonaro sobre CPI renderia uma nova CPI

Matheus Pichonelli
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A street vendor sells a mask of Jair Bolsonaro, far-right lawmaker and presidential candidate of the Social Liberal Party (PSL), in a demonstration in Sao Paulo, Brazil, October 21, 2018. REUTERS/Nacho Doce       TPX IMAGES OF THE DAY
Foto: Nacho Doce/Reuters

Esqueça a CPI da Pandemia.

Ninguém precisa de uma comissão parlamentar para apurar as responsabilidades de Jair Bolsonaro e grande elenco na tragédia que já multiplicou por dez, e contando, o projeto descrito em seus tempos de deputado para que o país finalmente entrasse nos eixos: dar um golpe no dia seguinte e começar uma guerra que matasse pelo 30 mil compatriotas.

Ah, verdade: ele não disse de coração. Falou por falar. No fundo, no fundo, ele não queria ver 30 mil compatriotas morrerem. Uns 10 mil, vá lá. Trinta já era exagero dele. Só para chocar e chamar a atenção.

Viu?

Nem comecei a escrever e os adictos de uma boa análise da interpretação já vieram com panos e lupas. Faz sentido.

O que o brasileiro gosta é de uma boa novela, uma boa trama, com reviravolta, traições, ameaças, suspense sobre quem vai botar fogo no circo no próximo capítulo. Falem o que quiserem das tramas globais ou do BBB. Hoje não tem novela que mais mobilize a audiência do que a encenada em Brasília.

Jair Bolsonaro não tem a menor ideia do que fazer com o país nem para que serve a faixa presidencial. Mas sabe como cativar os espectadores. É como um roteiro de terror B. Há quem realmente goste. E há quem se divirta com os erros de continuidade, os figurinos toscos, os cenários mal diagramados, os diálogos sem nexo. E, por alguma razão, ninguém consegue tirar os olhos da tela.

Desde que, com ajuda de programas de entretenimento, ele se tornou figura nacional, como um dia foram ET e Rodolfo, as dançarinas e os dançarinos do É o Tchan e os participantes da Banheira do Gugu, Bolsonaro virou também uma obsessão de brasileiros e brasileiras cansados daquela vida sem graça e sem emoção da sala de jantar onde todos ruminam o caminho para morte pensando em vencer na vida.

Como vilão de novela, a atuação do agora presidente não deixa ninguém parado, nem indiferente. Discute-se menos o que ele fala e mais por que fala. Se é estratégia ou não. Se é cortina de fumaça. E, se sim, o que de fato está querendo esconder.

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Tem sido assim desde que prometeu dar um golpe, começar uma guerra e matar pelo menos 30 mil mortos, a começar pelo presidente da época. As mortes e ameaças aqui são detalhes. O que mais se discute desde a tal entrevista é se ele de fato queria o que queria ou se estava apenas interpretando.

Bolsonaro virou assim uma espécie de Sherazade com em sua décima temporada de “As mil e uma noites”, agora em formato de live e cercadinho no Palácio. Com multitalentos, o presidente já interpretou diversos papeis diante da TV e das câmeras de celular. Já teve o presidente liberal. Já teve o presidente que vai interferir e ponto. Já teve o amigo do Sergio Moro. E o amigo traído por Sergio Moro. Mas nenhum papel exigiu tanto do seu protagonista do que aquele saiu pelas portas do fundo do Exército por indisciplina e se metamorfoseou, nas águas do Jordão, em patriota escudeiro da ordem.

No último conto-episódio, o presidente telefona para um senador e orienta como deve ser a CPI da Pandemia. O senador, um folclórico apresentador de TV que diante das câmeras parecia um leão destemido, acata às ordens bovinamente. A certa altura chega a jurar as boas intenções da comissão pela honra da própria mãe. Coisa de gigante.

E então decide botar o áudio da conversa no ar.

Havia ali um manancial de teses sobre interferência, acobertamento de crimes, constrangimento de Poderes, irresponsabilidade. Pouco importa: o que importa é saber se a conversa foi ou não encenada. Se eles combinaram a dobradinha. Se Bolsonaro sabia estar sendo gravado ou que o neoaliado iria colocar a troca no ar. Se foi encenada, foi a troco de quê? O que ela esconde? Será que nosso ator favorito espalhou outros easter eggs no meio das emas do Alvorada?

Mas espera. Ouça de novo esse áudio. O presidente está educado demais. Não tem sinal daquela agressividade-moleque de outros tempos. Nem demonstrou a velha fissura por genitálias e orifícios alheios. Está superficial demais pra ser verdade. O que eles tramam, hein?

É conversa encenada, jogo de compadres. Pera. Agora ele está reclamando que foi gravado. E agora o senador está dizendo que não há teatro algum. E, se tem, ela é da companhia do presidente.

Opa. Agora parece que tem elemento novo. Ah, sim: em outro trecho do áudio, divulgado agora na rádio, o presidente chama um outro senador para a porrada e o associa a excreções não digeridas. Esse sim é o presidente que eu conheço! Agora a conversa ficou séria. Agora a coisa está verossímil.

Mas e se o personagem real for o outro? E se, no fundo, o verdadeiro Bolsonaro for só um senhor cansado de guerra que precisa o tempo todo inflacionar a própria virilidade para manter excitados os seguidores?

Não se sabe. Ninguém pode saber. A não ser que, como matrioskas, aquelas bonequinhas russas tiradas de outras bonecas e de outras e de outras, a CPI da CPI vá na jugular da questão que nos atormenta e investigue o que tinha de espontaneidade e o que tinha de fala ensaiada na conversa entre Jair Bolsonaro e Jorge Kajuru.

As responsabilidades sobre a pandemia, conclui automaticamente a audiência, não precisam de uma CPI para serem expostas. Basta voltar alguns capítulos da novela e conferir, em flashback, o que disse o presidente desde que chegaram as primeiras notícias sobre um vírus misterioso que empilhava corpos pela Europa no começo do ano passado. Aqui não faria arranhão, a não ser entre velhinhos de Copacabana, lembra?

Lembramos, claro. Vamos criar uma CPI para isso? Não basta o trabalho dos perfis engajados no Twitter em desmentir o erro de continuidade da novela macabra? As falas absurdas do presidente que desmentem o novo figurino da versão das vacinas? Qual era real? Será que ele falava sério? Será que acreditava no que dizia? Será que apenas disfarçava uma humanidade soluçante escondida naquele coração empedernido pela vida? E se nosso herói for apenas um psicopata?

Não perca nos próximos capítulos da novela.