Artigo: Água para todos: a escassez hídrica e as margens para o futuro

No país com maior disponibilidade de água doce no mundo, nos acostumamos a ignorar sua escassez, a desigualdade na sua distribuição e como dependemos dela no dia a dia. O acesso à água e ao saneamento como um direito humano expõe nossa profunda relação com este recurso finito e a necessidade de trabalharmos a curto, médio e longo prazos para não deixarmos ninguém para trás.

O momento em que o Brasil vive mais uma grave crise hídrica, sanitária e social nos convida a agir em relação aos recursos hídricos sob o olhar da adaptação, resiliência, eficiência e acesso, com foco e alianças locais. A mudança do clima é uma das ameaças mais graves à humanidade, com impactos diretos sobre a segurança hídrica, em especial, a água para abastecimento humano, produção e consumo, geração de energia, preservação dos ecossistemas e resiliência aos eventos climáticos extremos.

E quando se fala em mudanças do clima, o sexto relatório do Grupo de Trabalho I do IPCC aponta que o globo provavelmente atingirá um aumento de temperatura média superior ao recomendado pelo Acordo de Paris até o final do século. Somente cortes ambiciosos nas emissões de fontes poluidoras permitirão manter um aumento de até 2°C médios. Caso nada seja feito, o IPCC projeta que o globo possa aquecer mais de 4°C no período. Na prática, o que isso representa?

O aumento da temperatura global é reflexo de diversos fatores, sendo os principais o desmatamento e a emissão de gases provenientes do efeito estufa – GEE. Estudos já comprovam uma perda pronunciada na resiliência de áreas florestais desde o início do século, levando a oscilações no regime de chuvas e trazendo uma repercussão negativa em relação ao desenvolvimento econômico e humano.

Mais de 2 bilhões de pessoas (cerca de 1 a cada 4) vivem em países com escassez hídrica ou consomem água proveniente de fontes contaminadas. Essa marca se agrava ainda mais em regiões de alta vulnerabilidade econômica e estrutural. A grande maioria dos países em desenvolvimento estão despreparados para os efeitos das mudanças climáticas e são os que mais sofrem com a falta de recursos e saneamento básico.

No Brasil, cerca de 40% do total da água potável destinada ao consumo se perde na tubulação, seja por vazamento ou por ligações clandestinas, segundo dados da Confederação Nacional da Indústria. Olhando a longo prazo, a Organização das Nações Unidas acredita que em 2050 faltará água para cerca de 5 bilhões de pessoas no mundo – ou seja, metade da população global estimada para a década. Baixas taxas de saneamento e má distribuição de água têm correlação direta com a transmissão de doenças que expõem os indivíduos a riscos de saúde evitáveis. Em crianças e adolescentes, por exemplo, o acesso à água potável pode resultar em mais saúde e no aumento na frequência escolar.

Cuidar da justiça hídrica da sociedade está longe de ser a preocupação de um único setor. Este é um papel que vai desde a conscientização do consumo interno familiar, como fechar a torneira ao escovar os dentes, até medidas de mitigação dos setores privado e governamental, com intuito de evitar as perdas e aprimorar a disponibilidade de água e saneamento para todos.

Segundo dados apurados pela Resultante ESG – que conta com uma plataforma de avaliação de quase 200 empresas de capital aberto – sobre a preocupação quanto ao tema “água”, dos 11 setores avaliados em 2021, apenas os segmentos de papel e celulose e o setor de siderurgia e mineração tiveram destaque e se apresentaram na média quanto à discussão da problemática, com um pouco mais de 60 pontos entre 100 possíveis em uma nota que leva em conta 15 temas ambientais, sociais e de governança corporativa.

Em geral, esses setores tiveram um bom desempenho por serem grandes indústrias que possuem maior materialidade no tema. Por outro lado, a média de todos os setores juntos não atinge os 30 pontos, o que indica que, de modo geral, as empresas não olham para esse consumo. Esperava-se uma pontuação melhor dos setores de infraestrutura e construção civil, por serem intensivos no consumo de água. No entanto, infraestrutura apresentou queda no desemprenho entre 2020 e 2021 e a construção civil ficou abaixo dos 20 pontos nos últimos 3 anos avaliados. O uso de água de forma consciente e o combate aos desperdícios é uma pauta de ação necessária.

Nesse contexto de um clima em mudança e da degradação das bacias hidrográficas, garantir a disponibilidade de água em quantidade e qualidade suficientes para o atendimento às necessidades humanas como prioridade e, ao mesmo tempo, viabilizar a prática das atividades econômicas e a conservação dos ecossistemas aquáticos e terrestres é um desafio complexo e urgente, que só será superado a partir de uma atuação de liderança conjunta entre o setor privado, os governos nas diferentes esferas e a sociedade civil, de forma sistêmica e com mecanismos de governança robustos. Para ajudar nessa missão, a Rede Brasil do Pacto Global estabeleceu o Movimento +Água, cujo objetivo é levar saneamento e segurança hídrica a mais de 100 milhões de pessoas até 2030.

Mais do que um posicionamento público, o Movimento +Água propõe uma jornada conjunta por maior controle, transparência e ações coletivas, defendendo a definição de metas como uma maneira poderosa de impulsionar as empresas com vantagem competitiva na transformação da sociedade para a universalização do saneamento e a segurança hídrica no país, avançando no Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 6 – Água Potável e Saneamento, que busca garantir disponibilidade e manejo sustentável da água e saneamento para todos.

A iniciativa é uma colaboração entre Rede Brasil do Pacto Global, Instituto Trata Brasil, Ordem dos Advogados do Brasil Conselho Federal (OAB), The Nature Conservancy Brasil (TNC) e Water.org. Para participar, as companhias devem se inscrever, reportar as melhores práticas e preencher um formulário anual auto declaratório do Movimento +Água com os indicadores de cada compromisso assumido.

É por meio do trabalho conjunto desenvolvido em iniciativas como essa, com a aliança entre empresas e atores de influência política e econômica, que a sociedade ganha forças para enfrentar as desigualdades, pensar a conscientização ambiental e aproveitar da melhor maneira os recursos tão básicos quanto finitos, como a água. Afinal, pensar em alternativas de mitigação da escassez hídrica é, também, pensar em desenvolvimento econômico e não podemos deixar essa reflexão para o futuro. Devemos voltar nossas atenções, no presente, para a carta que a humanidade está escrevendo aos nossos filhos e netos ou eles podem ter de pagar caro na conta que nós estamos deixando pendurada hoje.

Sobre as autoras: Daniela Freitas (Analista ESG & Mudança Climática na Resultante ESG) e Maitê Padovani Leite (Gerente de Meio Ambiente do Pacto Global da ONU Brasil.

Este artigo faz parte de um especial para a Semana do Meio Ambiente produzido para o Prática ESG. A sequência foi elaborada pela Resultante ESG, em parceria com o Pacto Global da ONU Brasil, e abordará os temas: escassez hídrica, biodiversidade e uso do solo, oceanos, justiça climática e mobilização de capital pelas empresas para o financiamento de projetos ambientais.

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