Artigo: Relembrando o 11 de Setembro

Nova York, 11 de setembro de 2001: Amanhecemos, eu e meu marido – na época, estudantes de doutorado na New School for Social Research – com um grande estrondo e os gritos apavorados de um vizinho que testemunhara pela segunda vez um avião de passageiros se chocar contra a Torre Sul do World Trade Center. O primeiro avião havia se chocado com a Torre Norte há alguns minutos, mas nós não nos demos conta. Ainda sonolenta, percebi apenas uma agitação na rua. As buzinas de bombeiros não são incomuns em Nova York. Mas naquele dia pareciam especialmente barulhentas.

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Assustada com os gritos do meu vizinho levantei-me rapidamente, certa de que se tratava de uma explosão de gás próxima ao meu prédio. Fui até a janela da sala e vi uma senhora que morava no último andar do prédio vizinho e observava com binóculos as gigantescas torres da varanda de seu apartamento.

Perguntei então a ela o que havia acontecido. “Dois aviões que se chocaram contra as Torres Gêmeas!”. Pensei, a princípio, estar enganada quanto ao que acabara de ouvir. Não podia ser. Dois aviões se chocando contra as torres? Corremos para o terraço de nosso prédio. Quando vi as chamas, não pude acreditar. Eram milhares de partículas de vidro e papéis queimados que se deslocavam do sul da ilha de Manhattan até Cobble Hills, no Brooklyn, onde morávamos.

Enquanto ainda tentávamos entender o que se passava diante de nossos olhos, encontramos nosso vizinho que havia testemunhado os dois aviões de passageiro atingirem as Torres Gêmeas. “Aviões de passageiro?”, repeti. “Sim, senhorita, dois grandes aviões comerciais de passageiro!”. Ele apontou para o chão e disse:”Veja, as pessoas retornando desesperadas para as suas casas. Eles nos atacarão hoje à noite.” E eu: “Eles quem?”. Foi quando meu marido me puxou pelo braço e corremos para o nosso apartamento para entender o que se passava.

Ligamos a televisão, que transmitia as notícias de que vários aviões sobrevoavam os céus dos Estados Unidos em uma aparente ação orquestrada de terroristas que alvejavam ainda outros ícones do poder político e militar norte-americanos. De repente, sentimos a vibração da Torre Sul a ruir. Meu marido pegou nossos documentos e pediu-me que me preparasse para correr.

É claro que estávamos muito longe do local e certamente não seriamos atingidos diretamente pelos pedaços de aço e concreto ou mesmo pelas chamas que se espalhavam, a levantar uma nuvem preta e a arrastar corpos e carros, demolir Igrejas e prédios pelo sul de Manhattan. Nosso medo era outro: temíamos que algo como uma guerra estivesse por vir, outros ataques. Não éramos os únicos. A força aérea não tardou em desfilar seus aviões-caça por todo o céu de Nova York. Tanques de guerra desciam a Atlantic Avenue, avenida onde ficava o nosso prédio, em direção à região costeira.  

Entre telefonemas de parentes e amigos, tentávamos entender o que acontecia. Não tenho bem definido o tempo que tudo isso levou. Só sei que, enquanto vivíamos aqueles momentos de medo e insegurança, a vida bem ao redor da minha casa, no meu quarteirão, ali a poucos quilômetros do grande desastre, o supermercado continuava de portas abertas, pessoas entravam e saiam dos restaurantes. Isso, de certo modo, nos trouxe alguma ancoragem. Era, contudo, como enraizar-se em um terreno arenoso e movediço.

No fim da tarde subimos novamente no terraço em uma tentativa insistente de compreender e assimilar a nova paisagem. Diante de nós um céu alaranjado, que se impunha à imensa nuvem de fumaça preta. Outros dias viriam.

*Lília Magalhães Tavolaro é socióloga e professora da UnB (Universidade de Brasília)

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