Artigo: Aprendi o que era ética com personagem de Gilberto Braga em 'Vale Tudo'

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Eu nem sei por onde começar a explicar a influência que as novelas de Gilberto Braga tiveram na minha vida. Acho que a minha primeira memória de um disco de vinil é de uma novela dele: “Dancin’ Days”.

Mas seu maior trabalho e que não apenas transformou a minha vida, mas mostrou ao brasileiro um retrato cru e ao mesmo tempo sofisticado de si mesmo foi “Vale Tudo”. A Raquel e seus sanduíches naturais foram inspiração para mim e minha mãe pra sair do buraco da hiperinflação dos anos 1980. E de alguma maneira Raquel e Maria de Fátima interpretadas com maestria por Regina Duarte e Glória Pires foram o retrato do conflito geracional entre mim e minha mãe.

Eu em certa medida era o adolescente que tinha vergonha da mãe pobre que vendia sanduíche no centro de Curitiba, embora nunca tenha chegado perto de vender a casa e largar a minha mãe na rua (embora ela comicamente me disesse que jamais poria a casa em meu nome por causa disso).

Nosso conflito não era ético, era de autoridade. Os valores da minha mãe de honestidade (algo de que ela se orgulhava muito) foram passados a mim de maneira muito sólida. Mas em mim eles ficaram muito por causa do retrato de Raquel.

A personagem que muitos chamam de chata pra mim é o maior personagem e a maior heroína das telenovelas de todos os tempos, porque se manter honesta e vencer na vida trabalhando sendo mulher, divorciada e com filho pra criar no Brasil não é pra qualquer um.

“Vende sanduíche na praia quem tem peito pra levantar da cama e trabalhar, coisa que não é todo mundo que tem coragem de fazer.”

Essa fala aparece na cena que mais me tocou em “Vale Tudo”. Eu tinha 12 anos e não tinha TV em casa, assistia na casa da vizinha. É quando Maria de Fátima finge que não conhece a mãe vendendo sanduíche na praia.

E, a despeito de todo seu posicionamento político vergonhoso, crédito seja dado à grande atriz que Regina Duarte já foi e à sensibilidade que imprimiu à cena.

O sorriso sincero de mãe amorosa, mesmo para aquela filha cega pela ambição. O fim do capítulo ao som da cuíca do samba rasgado de “Brasil”, escrita por Cazuza, cantada por Gal, a imagem estourando em branco no sorriso de alegria de Raquel ao rever a filha que a desprazava, e as lágrimas escorreram dos meus olhos.

Aos 12 anos eu entendi o que era ética e o que era o amor e o valor de uma mãe batalhadora. Eu vi na TV o espelho da minha vida e, apesar de nossas diferenças, amei e tive orgulho de minha mãe por ela ser uma Raquel, e desprezei Maria de Fátima, embora (e talvez exatamente porque) visse nela algo de mim. Esse horror à pobreza, que de certa forma é um motor que me propulsiona a sempre querer mais e melhor, e que infelizmente me deixa cada vez mais apavorado de um dia voltar ao Brasil, porque voltar ao Brasil significa voltar ao tempo das caixas de isopor com os sanduíches naturais, que também me deram teto e roupas de grife, que minha mãe comprava para disfarçar nossas paredes sem reboco.

Que eu tenha aprendido o que é ética com Regina Duarte me parece hoje uma tremenda contradição, mas, como diz o poeta James Baldwin: “A arte existe para provar que toda noção de segurança é uma ilusão.”

Gilberto Braga, como eu, também perdeu sua mãe para o suicídio. Tenho certeza de que essa perda fez dele o autor sensível que ele foi, que sempre usou suas novelas como veículo de discussão de questões relevantes.

Sem falar em seu amor pelo cinema, que através de Mordomo Eugênio me abriu as portas para os grandes clássicos da sétima arte, que me levaram a escrever sobre novelas e aos tapetes vermelhos de Hollywood. Obrigado, Gilberto Braga, por tudo que você, através de sua arte, me ensinou. Pena que você nunca quis me dar uma entrevista.

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