Artigo: Atrelar criação de clubes-empresa no Brasil à volta do título no Mundial reflete resultadismo

Fernando Barbalho Martins*
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A edição digital do GLOBO de 11/02/2021 trouxe instigante artigo do renomadoadvogado Eduardo Carlezzo, referência na área do Direito Desportivo, afirmandoque “os clubes brasileiros precisam virarempresas se quiserem ganhar o Mundial da Fifa”. Ainda que eu sejaentusiasta da ideia do abandono do anacrônico modelo associativo que domina ofutebol brasileiro, peço licença para apontar que a análise padece do mesmodefeito congênito que vem comprometendo a capacidade de reação da modalidade emnosso país.

Comefeito, se dermos um passo atrás e apreciarmos as dificuldades que a modalidadeenfrenta no Brasil, constataremos que, por exemplo, a instabilidade dostreinadores (contraposta à estabilidade do técnico – brasileiro! – do Tigresdestacada pelo artigo ora em comento) se deve a uma ênfase, praticamente a umahisteria, em torno da produção imediata de resultados. Os clubes contratam edemitem técnicos de acordo com a sequência de vitórias e derrotas circunstancialmenteobtidas em determinada etapa da temporada.

Ospróprios treinadores destacam esse pecado quase original do futebol nacional,tendo-se cunhado um neologismo preciso para tal fenômeno: resultadismo. Se otime ganha, pouco importa se jogou mal ou se a vitória decorreu de um golpe desorte, destaca-se tão somente o resultado. O processo não importa, a eventualevolução de conceitos de jogo ou a criação de momentos de prazer estético ou demobilização popular em torno do time também não têm qualquer importância.Venceu, segue; perdeu, rua.

E sobeste signo, desenvolve-se outra peculiaridade do esporte em terras brasileiras:os modismos. Fábio Carille ganhou o Brasileiro, era um técnico jovem, formadonas categorias de base do Corinthians. Foi o momento em que os demais clubespassaram a promover os treinadores das equipes juniores e juvenis.

LuizFelipe Scolari venceu a Copa do Brasil pelo Palmeiras: então era a hora decorrer para contratar os “medalhões” já consagrados. Jorge Jesus venceu tudo empoucos meses no Flamengo? Pois agora a diretriz é contratar profissionaisestrangeiros.Independentemente do perfil individual, oque importa é não ser brasileiro.

Oargumento de que somente a transformação dos clubes em empresas irá viabilizarnovas vitórias no Mundial de Clubes da Fifa parece ser somente mais umaexpressão desse resultadismo. Tanto é assim, que se a final tivesse sido RealMadrid x Flamengo, poder-se-ia dizer que o argumento teria caído por terra?

Evidentementenão é assim.

Entretanto,a recuperação da nossa paixão nacional não pode estar centrada somente numelemento isolado. A transformação de clubes em empresas é útil somente namedida em que criar estruturas de governança transparentes e que permitamefetivo controle sobre a gestão das agremiações esportivas. Ou alguém imaginaque uma empresa de futebol com 75% (como aconteceno Bayern de Munique) de suas ações na mão da associação que quase faliu naorigem, sujeita às ingerências políticas de algumas poucas dezenas deindivíduos que se revezam no poder há décadas, terá capacidade de atrair o“cheque de um bilhão” de que nos fala Eduardo Carlezzo?

Maisdo que a alteração individual de modelos jurídicos, o futebol brasileiroprecisa de uma mudança radical de seu ambiente como um todo. Enquanto os clubes(ou clubes-empresas) não deixarem de se ver como inimigos a disputar o maiornaco do bolo, e passarem a se entender como sócios no desenvolvimento de umproduto comum, migrando da tara quase freudiana em comparar tamanhos de cotasde televisão e valores de patrocínios para uma atitude verdadeiramentecooperativa, em que uma liga seja, aqui também, uma empresa que gera resultadospara todos e eleva a capacidade financeira de cada um, seguiremos patinando namediocridade.

CarlosAlberto Parreira sempre disse que o Brasil teria o potencial para ser uma “NBA do futebol”. A minha geração estáassistindo os nossos filhos identificarem essa "NBA" do outro lado do Atlântico, na Liga dos Campeões da UEFA. Osfuturos torcedores estão conectados com um esporte que já se compreendeu comoparte da indústria do entretenimento, altamente profissionalizada e que precisade muito dinheiro para produzir o encantamento necessário para reter seusespectadores.

Palmeiraseste ano, ou o Flamengo ano passado, não competiam contra o Tigres ou oLiverpool, mas lutavam para se fazerem notar no cenário mundial. Enquanto ofutebol brasileiro não parar de mirar no resultado e refazer o processo deconstruir um espetáculo que seja consumido quarta e domingo, vamos seguirdependendo do gol isolado do Gabiru, e isso independe do empregador dele ser um“abnegado” ou um detentor de MBA.

*Fernando Barbalho Martins é advogadoe professor convidado de Direito Desportivo da FGV