Artigo: Brasil precisa aproveitar efeito Ana Marcela Cunha e ‘nadar de braçadas’

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No Rio, a “liturgia do nado” começa às 5h da manhã. Enquanto muitos estão a caminho do trabalho ou dormindo, da Urca ao Pontal os adeptos da maratona aquática estão de pé na areia, vestindo a touca e os óculos, olhando para o mar em silêncio desenhando mentalmente a estratégia do percurso que dependerá da maré, das ondas e dos ventos. Somos todos Ana Marcela.

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Nadar no mar é um esporte solitário, mas que não se pratica sozinho; é uma experiência interior vivenciada em cardume. Para o atleta, a direção é mais importante que a velocidade, pois não há raias nem ladrilhos de referência no ambiente marinho. Para muitos, o mar é para aventureiros, loucos ou afins. Para os praticantes, o mar é a comunhão com a natureza,bem-estar, estilo de vida, equilíbrio mental e saúde.

No que concerne à saúde, nadar no mar oferece baixo impacto, combate a obesidade e consequentes mazelas como diabetes e hipertensão arterial. Com esse olhar, países como Austrália e Holanda integram esse tipo de atividade alinhando as políticas públicas das pastas ministeriais de esporte e saúde, as quais são muitas vezes ocupadas pelo mesmo ministro. Natação não é panaceia, mas nos últimos 80 anos a expectativa de vida nos países desenvolvidos aumentou em 30%. No Brasil, a média projetada para 2030 é de 78 anos. Portanto, como já alertava um famoso bordão na televisão: “saúde é o que interessa, o resto não tem pressa”.

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Mesmo com a medalha de ouro e, aproximadamente, 8.000 km de costa, nossa política pública não aproveita nossos recursos e o Brasil caminha registrando tristes estatísticas sobre afogamento. Segundo a Sociedade Brasileira de Salvamento Aquático, a cada uma hora e meia um brasileiro morre afogado; homens morrem em média 6,8 vezes mais; 46% dos óbitos ocorrem até os 29 anos. Dados que poderiam ser revertidos se alguns municípios litorâneos utilizassem essa piscina gratuita do mar para ensinar natação. Como sem ensino não há aprendizado, Ana Marcela é a heroína de um país que não sabe nadar.

No mundo, a natação de águas abertas se tornou um filão para a realização de eventos e para o incremento da indústria de turismo. Um mercado disputado por França, Itália, Estados Unidos, Austrália, Inglaterra e México. A experiência de conhecer novos lugares nadando — assim como correr ou pedalar — conquistou adeptos pelo globo. A própria Federação Internacional de Natação, reconhecendo o bom momento, planeja incluir eventos de lazer durante as competições de elite para disseminar a prática. Excelente estratégia.

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No Brasil, nossa conquista animou o mercado. É o efeito “medalha de ouro”, como definido pelos economistas. Vivemos esse mesmo efeito com Guga, no tênis. A diferença é que maratona aquática é um esporte distante dos olhos e, por assim o ser, dificulta a popularização da imagem e, consequentemente, a captação de patrocínio. Mesmo assim, os eventos de lazer brotam e prosperam. Natação no Rio Negro, na Praia de Copacabana, Ilhabela, Camboriú, Baía de Todos os Santos, Angra dos Reis. O momento seria para “nadar de braçadas” combinando o desenvolvimento da modalidade aos investimentos em turismo e Economia do Mar, visando a geração de empregos, renda e futuras “Anas Marcelas”. Vontade política? Procura-se!

Ana Marcela e os atletas que a antecederam, como Poliana Okimoto, fizeram sua parte. Conquistaram medalhas, nossos corações e nos deram a chance de catapultar a modalidade utilizando a alavanca do efeito medalha para colocar o Brasil na lista dos países onde a economia do esporte prospera na trilogia ouro-eventos-turismo, onde há redução do número de afogamentos e onde a política pública de saúde e esporte se integram visando bem-estar da população e desoneração do já exausto SUS. No mundo de hoje, nadar é uma nova forma de conhecer lugares. O Brasil, apesar da medalha de ouro e de todas as mais recentes conquistas, continua a não aproveitar a oportunidade. Repito, com quase 8 mil km de costa.

*Maureen Flores é doutora em Estratégia e Desenvolvimento

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