Artigo: Colômbia se liberta de seu Sísifo

Dia 2 de outubro de 2016 o mundo se surpreendeu quando foi anunciado o resultado do plebiscito sobre o processo de paz na Colômbia. Por 50,2% a 49,8%, os votantes rejeitaram a proposta de acordo de paz formulada pelo então presidente, o centrista Juan Manuel Santos.

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A proposta, que rendeu ao ex-presidente o prêmio Nobel da Paz naquele ano, ia muito além do cessar-fogo. Envolvia reforma agrária, desenvolvimento rural, apoio às vítimas e uma série de outros pontos complexos.

Os 50 anos de conflito armado entre o governo e as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) deixaram marcas profundas de violência política na história do país, com vários candidatos presidenciais assassinados em um passado não tão distante. Após essas cinco décadas, a Colômbia parecia envolta em seu próprio mito de Sísifo, como se estivesse condenada a carregar essa pedra eternamente montanha acima.

Com a derrota dos acordos (que foram renegociados em seguida, mas com evidente tensionamento social), os inimigos do processo de paz, liderados por um dos artífices da guerra às Farc, o ex-presidente Álvaro Uribe, elegeram seu candidato para governar o país em 2018: o direitista Ivan Duque.

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Os últimos quatro anos foram marcados pelo gosto amargo de um ambicioso processo de paz incompleto e por um governo que navegava em uma agenda moralmente conservadora. Por uma política econômica de austeridade sem respostas para as demandas por mais igualdade e por uma agenda ambiental ousada no discurso internacional — embora pouco efetiva internamente e, sobretudo, descolada dos seus impactos sociais.

Essa combinação fez não apenas com que Duque recebesse níveis paupérrimos de aprovação, mas com que a sociedade civil e movimentos populares, derrotados no plebiscito por tão pouca diferença de votos, começassem a tomar as ruas em duas grandes ondas de protestos. A segunda e maior se iniciou em abril de 2021 e se estendeu ao longo do ano passado. Em todo o país e com agendas multifatoriais, as manifestações consolidaram o sentimento de insatisfação popular e foram reprimidas violentamente, com dezenas de mortos pelas forças policiais.

É nesse caldeirão de insatisfação que se deram as eleições colombianas, encerradas no último domingo.

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Gustavo Petro emergiu como líder em todas as pesquisas de opinião, principalmente desde que os protesto se acentuaram. Ex-guerrilheiro, desmobilizado nos anos 1990, fez a opção de trocar as armas pela política institucional, foi senador, prefeito de Bogotá e segundo colocado nas eleições presidenciais de 2018.

Petro conseguiu absorver grande parte do sentimento contra o establishment presente nas manifestações. Para a Vice-Presidência, ele poderia — e muitos o aconselharam a fazer isso — escolher alguém do centrista Partido Liberal Colombiano. Mas Petro surpreendeu e escolheu como companheira de chapa Francia Márquez, uma mulher negra, que foi empregada doméstica e construiu seu ativismo pelo direito à terra, na defesa do meio ambiente e em favor da população afro-colombiana (Márquez foi fundamental para incluir o tema afro-colombiano no acordo de paz).

Na reta final das eleições, Rodolfo Hernández emergiu como outra alternativa contra o establishment. Prefeito da cidade Bucaramanga, o empresário se celebrizou pelo uso massivo de redes sociais e de um discurso contra a corrupção que de tão antipolítico, tangenciava a antidemocracia.

Petro e Hernández claramente tinham trajetórias que aceitavam a necessidade de escutar as movimentações das ruas. Mas Hernández recebeu, no segundo turno, o apoio dos vencedores no plebiscito de 2016 e se dizia representante da cacofonia das ruas que questionava os políticos.

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Gustavo Petro e Francia Márquez conseguiram, de fato, se apresentar como a trajetória mais sólida das ruas ao poder. A insatisfação dos colombianos era contra um país que cresceu muito e deixou muita gente de fora, contra políticos que usaram o medo para bloquear mudanças. A aposta na chapa que venceu era uma aposta em uma ruptura com direção clara.

A vitória de Gustavo Petro é a oportunidade de a Colômbia finalmente romper seu mito de Sísifo. Desassombrar-se de um passado de violência política para entrar na era da alternância democrática de poder. Dar-se a si mesma a segunda chance de ser ambiciosa como foi o processo de paz rejeitado em 2016. A votação de domingo dá legitimidade a uma retomada ainda mais profunda daquela agenda. E a vitória de Francia Márquez é mais do que isso. Permite à Colômbia enfrentar suas estruturas racistas e patriarcais e aponta para uma nova agenda política e econômica na qual a inclusão se dá a partir do respeito à natureza.

Nada indica que será fácil aos vitoriosos cumprir suas promessas. As ambições são enormes e as condições políticas e econômicas são frágeis. Mas a dupla vencedora representa um marco histórico para a Colômbia. E o reconhecimento pacífico e democrático da derrota por parte de Hernández, em um país com tanta história de violência política, deve inspirar seus vizinhos mais ao Sul ou parceiros históricos mais ao Norte.

* Pedro Abramovay é diretor para América Latina e Caribe da Open Society Foundations

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