Artigo: Como evitar o greenwashing e gerar uma estratégia de valor ESG no agronegócio?

Hoje o principal desafio de execução de Agenda ESG nas companhias é entender os critérios e como os aplicar, isso porque existem múltiplos formatos de implementação e indicadores (GRI, SASB, PRI, World Economic Forum, etc.), o que gera uma grande complexidade na análise e, principalmente, na gestão dos interesses dos stakeholders e de adequação da cadeia de fornecimento.

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Por conta dessa dificuldade conceitual e procedimental inicial, ainda que os interesses sejam proativos no sentido de incorporar o ESG à estratégia de negócio, é preciso cautela para que as ações ambientais, sociais e de governança sejam de fato uma agenda de transformação e de impacto positivo para a empresa, seus stakeholders e a sociedade, do contrário essas ações mal executadas podem ser consideradas greenwashing.

O greenwashing pode ser definido como o conjunto de ações, por organizações ou indivíduos, de forma “maquiada” e que visam se apropriar de virtudes ambientais com o intuito único e exclusivo de gestão de imagem e reputação empresarial dissociada das intenções reais.

No dia a dia, as empresas que aderem a uma agenda ESG precisam realizar algumas práticas com o fim de se afastarem da mácula do greenwashing. A primeira delas é efetivamente incluir o ESG na estratégia de negócios e tomada de decisões da empresa, e não apenas como critério de gestão de imagem e reputação, pois essa é a consequência e não o pontapé inicial. Depois é preciso definir critérios objetivos e materiais a se trabalhar levando em conta os anseios de diferentes grupos de stakeholders, de modo a criar impactos positivos para todos os envolvidos e para a saúde da empresa.

Por isso e para isso, é necessário que existam, 1) Plano de Ação com ações concretas, agentes envolvidos, prazos e modos de acompanhamento; 2) Relatório com informações claras, transparentes e, principalmente, auditáveis pelo mercado.

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Exemplos bem-sucedidos de incorporação da estratégia de valor ESG passa por definições sobre gestão de KPIs e certificações na esfera ambiental. A redação de políticas de diversidade e de igualdade entre homens e mulheres são exemplos na dimensão social e o olhar para a política de gestão de fornecedores, além do papel do Conselho de Administração, são pontos chave na geração de governança.

A característica de negócios em rede e interconectados que se somam no agronegócio é um campo fértil para a aplicabilidade de agenda ESG. Isso porque existem variados contratos empresariais complexos, gestão de fornecedores, consequências de responsabilidade ambiental sob a forma objetiva e solidária em diversas operações, além de grande impacto econômico e social sob o aspecto de soberania nacional entrelaçada às exportações existentes em toda a cadeia.

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De forma individual cada um dos operantes da cadeia agroindustrial precisa avaliar sua realidade, pois as materialidades de construção de projetos e de relatos integrados a indicadores nacionais e internacionais é variável e não segue um padrão pré-fixado nas diferentes operações.

Existem critérios atrelados às atividades de indústrias químicas, de biotecnologia ou fertilizantes que não necessariamente estão presentes nos frigoríficos, propriedades rurais, cooperativas ou cerealistas. Ainda, a posição geográfica e as relações institucionais e comerciais podem conter tônicas diferentes e de certa forma induzem a escolha de desenvolvimento de temas como emissões atmosféricas, mudanças climáticas e gestão de risco, biodiversidade ou compliance, caso a caso.

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A compilação de temas materiais mais comumente analisados pelo mercado de investidores e financiadores, pode ser assim resumida, 1) Ambiental: emissões atmosféricas, projetos relacionados o uso da água e gestão de resíduos; 2) Social: relações de trabalho, impacto na comunidade e diversidade; 3) Governança: transparência de informações, segurança da informação e ética na gestão.

É importante que as metas de compromissos sejam tangíveis, por exemplo: reduzir em 20% a intensidade das emissões de dióxido de carbono na produção, calcular o ciclo de vidas dos produtos, tratar e reutilizar a água utilizada nos processos de produção, ou ainda, aumentar a participação das mulheres nos cargos de liderança, ter uma política antirracista, ter uma política educacional de fomento ao estudo de colaboradores, ter auditoria regular de seus clientes, treinamento do Código de Conduta a colaboradores, possuir gestão de fornecedores com critérios objetivos.

Assim, a geração da estratégia é personalizada, mas, de forma uníssona, pode-se definir que a incorporação ESG ao DNA da tomada de decisões e o desejo de geração de impactos positivos nas esferas ambiental, social e de governança é o coração de uma estratégia bem definida.

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É possível gerar uma estratégia de valor ao agronegócio também em rede, através de incentivos de políticas públicas, como legislações de ordem premial, como é o caso da Lei 12.651/2012 (Código Florestal) e seu capítulo X, a Lei 14.130/2021 (Fiagro) e o incentivo a instrumentos de financiamento privado, além do recente Decreto 11.075/2022 (Mercado de Carbono), cujos mecanismos trazem grande importância a temas ESG.

Sobre a autora: Rafaela Aiex Parra é responsável pela área Ambiental do escritório Araúz Advogados. Mestre em Direito Negocial pela Universidade Estadual de Londrina (UEL), ela é coordenadora da pós-graduação em Direito Aplicado ao Agronegócio pelo Instituto de Direito Constitucional e Cidadania (IDCC) e professora em Direito Ambiental e Agronegócio em diversos cursos de pós-graduação. Membro do Comitê de Sustentabilidade da Sociedade Rural Brasileira e da Comissão de Direito Agrário e Agronegócio da Ordem dos Advogados do Brasil, Seccional do Paraná – OAB/PR. Autora dos livros "Função Social da Propriedade Rural, Noções Gerais do Aspecto Ambiental e o Direito de Propriedade" e “Agronegócio, Sustentabilidade e a Agenda 2030”.

Disclaimer: Este artigo reflete as opiniões do autor, e não do jornal O Globo. O jornal não se responsabiliza e nem pode ser responsabilizado pelas informações acima ou por prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso dessas informações.

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