Artigo: Contra o novo coronavírus, lógica da guerra mais compromete do que salva vidas

Daniel Tabak*

Em 1971, o Presidente Richard Nixon transformou a expressão “Guerra contra o Câncer” em uma cruzada nacional com o objetivo de eliminar o mal terrível que até hoje assola o planeta. Em 2020, a metáfora da guerra vem sendo utilizada no combate à Covid-19, que já ceifou mais de 200 mil vidas desde o fim do ano passado. No momento em que um oncologista coordena a resistência à pandemia em nosso país, a analogia é mais do que pertinente. Bilhões de dólares foram gastos em pesquisas que permitiram uma redução na taxa de mortalidade associada ao câncer. Muitos anteciparam resultados mais gritantes que infelizmente não aconteceram. Entretanto, conceitos elementares e mais econômicos garantiram resultados muito mais expressivos. O combate ao tabagismo e à obesidade confirma a eficácia da medida mais importante no enfrentamento da Covid-19: a prevenção.

Metáforas de guerra são perigosas no período que atravessamos. O símbolo do conflito gera militância e uma corrida às armas convencionais, o oposto do que precisamos neste momento. Nos afasta da estratégia mais poderosa contra o coronavírus: a solidariedade. A analogia da guerra nos força a aceitar o impensável e nos cega diante de soluções mais eficazes diante da crise. No embate contra o vírus mortal, com o agente hostil infiltrado em nossas fileiras, precisamos de uma solução que toca a essência do ser humano: a compaixão. Muitos dirão que precisamos nos unir contra o oponente comum para fazer as mudanças coletivas necessárias. De fato, nossa visão humanística nos impulsiona para um objetivo universal: salvar vidas. A tática para esmagar a ascensão macabra das mortes é simples: ficar em casa.

Em 1969, Elisabeth Kübler-Ross em sua publicação seminal “Sobre a morte e o morrer” reafirma, no tratamento do câncer, as palavras de William Osler, o médico mais brilhante de todos os tempos: “O bom médico trata a doença. O grande médico trata o paciente que tem a doença.” Em um dos estudos psicológicos mais importantes do fim do século 20, Kübler-Ross explora os cinco estágios da morte: negação, raiva, barganha, depressão e aceitação.

Os estágios se sucedem e não se manifestam na mesma forma em todos os pacientes. Diante do câncer terminal frequentemente nos defrontamos com as expressões comuns. A negação: “Isto não pode estar acontecendo comigo”. A raiva: “Como isto pode estar acontecendo comigo?” A barganha: “Deixe-me viver até a formatura dos meus filhos. A depressão: “A morte se aproxima: Qual o sentido da quimioterapia?” E finalmente a aceitação: “A morte é inevitável. Preciso me preparar para a partida.”

Qual o caminho apontado por nossos dirigentes perdidos em elucubrações futurísticas? A negação se apresenta na referência à Covid-19 como se fora apenas uma gripezinha curável com a pseudociência da cloroquina. A raiva se arvora contra a China em um ataque infantil e deseducado ao maior fornecedor de insumos essenciais para proteção dos heróis da Saúde. A barganha compromete a vida em troca da economia, como se para os mortos houvesse amanhã. A depressão refletiria a tristeza, absolutamente indetectável nos regentes expostos na sua total falta de empatia. E a aceitação? Nenhum sinal à vista se não reconhecermos que o crescimento econômico este ano está em estado terminal.

Slavoj Zizec, o filósofo esloveno e crítico do capitalismo, do liberalismo e do politicamente correto, nos ilumina no seu livro “Pandemic” recentemente publicado. Na sua introdução ele nos remete ao evangelho de João 20:17. “Noli Me Tangere - Não me toque” é a fala de Cristo à Maria Madalena após a ressurreição. Zizec, um ateu convicto, afirma que Cristo estará presente sempre que houver amor entre os seus seguidores. Ele estará presente não como uma pessoa a ser tocada, mas como a conexão entre o amor e a solidariedade entre as pessoas. A pandemia nos ensinou que as mãos não podem alcançar o outro. É através das máscaras que encontramos o olhar daqueles que mais amamos. O coronavírus não pode nos roubar o sentimento de amor ao próximo. Com olhos em um futuro que contraria um cenário distópico, precisamos antever que o distanciamento físico de hoje fortificará a nossa união. Ao evitar aqueles que são tão próximos, nós os protegemos de nós mesmos. E mais do que nunca experimentamos a sua presença e quão importantes eles são para nós. Nossa única esperança é que um novo normal seja construído a partir das ruínas de nossas vidas de hoje.

O tempo urge. Precisamos de ações concretas para honrar aqueles que se sacrificaram — e se sacrificam — para salvar a todos nós. Hoje. Agora. Já.

*Daniel Tabak é membro-titular da Academia Nacional de Medicina