Artigo: ‘Demonstração de ódio e desprezo à cultura’

Assistimos com indignação e repulsa aos atos antidemocráticos de manifestantes que invadiram e depredaram, no domingo, dia 8 de janeiro, os edifícios dos três Poderes do governo brasileiro, o Congresso, o Supremo Tribunal Federal e o Palácio do Planalto. Instituições fundamentais para o exercício da democracia foram covardemente agredidas com a destruição de suas instalações e equipamentos, afetando patrimônios arquitetônicos, culturais e artísticos do povo brasileiro.

Como demonstração de ódio e desprezo à cultura, foram danificadas obras de relevantes artistas brasileiros pertencentes aos acervos dessas instituições. A tela “Mulatas”, de Di Cavalcanti, foi perfurada em seis lugares. Obras dos escultores Bruno Giorgi e Frans Krajcberg tiveram partes quebradas. A escultura “A Justiça”, de Alfredo Ceschiatti, foi pichada. Uma escultura em bronze de Victor Brecheret foi depredada. Os edifícios com arquitetura de Oscar Niemeyer, tombados pelo Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), também foram alvo desses atos de vandalismo.

Tal comportamento nos remete ao discurso de ódio presente nas ações terroristas dos talibãs, com a destruição de monumentos como os “Budas de Bamiyan”, no Afeganistão (2001), e a filmes como “Arquitetura da destruição” (1989), de Peter Cohen, sobre o nazismo na Alemanha nas décadas de 1930 e 1940.

A destruição e pilhagem de bens públicos sem precedentes na história do país, nas principais sedes de representação do governo brasileiro, é a expressão da barbárie de uma parcela da nossa população. Temos diante de nós, além do desafio de identificar e punir os responsáveis, a tarefa de ampliar e aprofundar os conceitos de cidadania.

*Assinam o texto: Adair Rocha, cientista político; André Lenz, artista visual e designer; Ana Hortides, artista plástica; Anna Bella Geiger, artista plástica; Fernando Cocchiarale, crítico de arte e curador e Pedro Pinchas Geiger, geógrafo