Artigo: Erasmo, meu mestre

Um jornal me pediu para fazer um perfil do Erasmo para a revista que era encartada aos domingos. Umas dez páginas. Tinha que ter assunto, mas, entre ele e mim, isso nunca faltou. Liguei para o Tim Maia e pedi pra ele me contar algo que ninguém sabia sobre o Erasmo. Ele me contou que Roberto e nosso Tremendão tomavam água de moringa na infância, e que ele, Tim, era o único que tinha geladeira em casa. Erasmo respondeu com: “O que o Sr. Tim não conta é que a mãe dele tinha uma pensão e a minha família pedia comida lá. E sempre atrasava porque o Sr. Tim parava com as marmitas na rua pra jogar bola, descansar, ou mesmo pra comer! Quando chegava uma marmita vazia, a gente sabia que era de bolinho de arroz!”

Ontem de noite (segunda-feira, véspera da morte do cantor) eu estava pensando no Erasmo. Tinha que falar com ele e, mentalmente, me programei para fazer isto hoje cedo. No aniversário dele liguei e não conseguimos nos falar porque, voltando de um show, ele teve um voo cancelado. Chegou tarde em casa. Depois vi que ele tinha sido internado. Deram a notícia da morte dele, sem averiguar, e ele desmentiu. Deu um susto em quem o ama. Além de parabenizar pelo Grammy de melhor disco de rock em língua portuguesa, uma excepcional releitura de clássicos da Jovem Guarda, eu queria também convidá-lo para cantar comigo em um disco que estou preparando, ao vivo. Primeiro nome que pensei para um dueto foi o dele. Em todos os meus shows eu canto algo dele.

Quando fui ligar, de manhã, recebo uma mensagem da Guacira, minha sócia e amiga querida, avisando da notícia. Preferi mandar uma mensagem por WhatsApp pra ver se não era outro boato. Não era. Fernanda liga aos prantos, dizendo que ele me amava e tinha admiração e respeito profundos por mim. Não sei se mereço. Mas disse a ela que ela foi responsável por um momento muito feliz e inspirado na vida dele. Um grande amor.

Não sei mensurar o tamanho da minha dor. Estou com o anel que ele me deu quando lancei meu primeiro disco. Ele me chamou em sua casa, e também uma revista, para registrar o ocorrido, e me deu o anel que ele usava na Jovem Guarda. O anel do Tremendão é meu talismã há 40 anos. Naquele dia ele disse que queria me dar esse anel da sorte porque ele achava que eu, um iniciante, era o Erasmo Carlos da minha geração.

Nenhum elogio chegará perto deste.

Voltando ao “perfil” que fiz dele nos idos anos da década de 1990. Ele dizia que tinha mais de 500 músicas gravadas, algumas delas com versões em muitos países, como “Jesus Cristo” em idiomas como grego, finlandês, inglês, francês, espanhol e italiano. Sua obra é magistral e justifica seu apelido: Gigante Gentil. Sua doçura era o traço mais forte. Homem, simples, feminista, amoroso, teve que superar muitas dores e perdas, mas sempre mantendo sua vigorosa fé na vida.

Meus sentimentos a todos os familiares, em especial a Leo e Fernanda, e minha gratidão a ele por tanta generosidade sempre! Nunca tive como demonstrar esta gratidão como gostaria. O disco original do Gene Vincent que ele me deu há uns 40 anos, importado, que lhe tinha sido de muita inspiração, demonstra isto. A gente sempre terá que agradecer ao Erasmo. Ele sempre deu a todos mais do que ele tinha. E todo amor que pudermos devolver a ele, agora ou sempre, será menos do que ele merece.