Artigo: Investimento brasileiro em vacina contra a Covid-19 chega, mas com atraso

Natália Pasternak
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Em entrevista recente para O Estado de São Paulo, o ministro astronauta Marcos Pontes declarou que temos vacinas brasileiras “a ponto de bala” para serem testadas em humanos. Encarregou-o o presidente Jair Bolsonaro de desenvolver um imunizante 100% brasileiro.

Investimento em ciência nacional é sempre bem vindo, ainda mais na área de desenvolvimento de vacinas, na qual o Brasil tem tanto potencial desperdiçado. Mas Pontes e Bolsonaro estão querendo pegar, agora, barco que saiu do porto faz tempo.

Uma vacina nacional, cujo desenvolvimento tivesse começado em março de 2020, poderia realmente ter poupado o Brasil das incertezas de fornecimento que nos assombram agora.

O Butantan poderia já ter sua própria vacina de vírus inativado, a tecnologia da CoronaVac, e que, com recursos adequados, não teria dificuldade em adaptar para o novo coronavírus, sem necessidade do acordo que acabou sendo firmado pelo governo paulista com a Sinovac.

Pontes diz que há vacinas nacionais no “finalzinho dos testes pré-clínicos”, prontas para uso no fim do ano.

Tamanho otimismo só pode ser fruto de ignorância ou fantasia. Esses testes que estão no “finalzinho” são em animais. Não há até agora uma única publicação de nenhum laboratório brasileiro — inclusive o que esta colunista colabora — com resultados do tipo.

Há mais complicações do que caberia citar neste espaço, então vamos à principal: uma vez que existam vacinas licenciadas no país, torna-se antiético fazer estudos com grupo placebo. Se podemos imunizar as pessoas com vacinas de eficácia comprovada, como justificar injetá-las com solução salina?

A alternativa são testes de não inferioridade: o que seria o “grupo placebo” passa a ser composto por pessoas imunizadas com alguma das vacinas já disponíveis. E a questão é: a nova vacina é mais eficaz do que a que já existia?

Esses testes são muito caros e demorados. Comprovar a eficácia de uma vacina requer contar um certo número de “eventos”, isto é, de casos de doença entre os voluntários do estudo. Se todos os voluntários estiverem vacinados e as duas vacinas usadas forem boas, quanto tempo vai demorar para haver eventos suficientes? Um jeito de reduzir o tempo é reunir um número muito grande de voluntários, muito maior do que o usado num teste contra placebo. Juntar tanta gente custa dinheiro – e tempo.

Uma alternativa, que depende de autorização especial, é fazer a fase 3 baseada em correlato de proteção. Nesse caso, não se comparam grupos, mas realizam-se exames de sangue e os voluntários vacinados têm marcadores de que estão protegidos. O problema é que, para a Covid-19, esses marcadores são desconhecidos.

Se por um lado investir em vacinas brasileiras é essencial, é preciso deixar claro que o imunizante brasileiro de Covid19 é para daqui a alguns anos, quando, espera-se, a pandemia já estará controlada.

A vacina será útil para atacar surtos localizados, ou ainda, se necessário, em vacinações periódicas, como a da gripe.

O Brasil também precisa de vacinas próprias para lidar com doenças de interesse nacional, como a dengue. O investimento na área é urgente. Mas seria melhor se o assunto fosse tratado como coisa de gente grande, e não tema de discurso motivacional.

* Natália Pasternak é microbiologista, presidente do IQC e colunista do GLOBO