Artigo: Marília Mendonça quebrou padrões e abriu portas na música sertaneja

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Há uma lista de mulheres importantes na quase centenária História da música sertaneja, mesmo com o desconforto que causavam em um gênero dominado por homens: Inezita Barroso, As Galvão, Nalva Aguiar, Inhana e tantas outras marcaram época. E há semelhanças importantes na história de duas delas: Roberta Miranda e Marília Mendonça.

Compositora de mão cheia nos anos 1980, Roberta era responsável por sucessos de diversas duplas masculinas. Era uma mina de ouro como autora, e por isso mesmo, não havia quase nenhuma intenção das gravadoras em transformá-la em uma cantora.

De tanto brigar, conseguiu gravar seu primeiro LP e virou uma das maiores vendedoras de discos daquela década. Marília também precisou falar grosso. Ouviu, por diversas vezes, que ainda era muito nova, mas se manteve firme com o propósito de cantar.

Tinha dois grandes defensores de sua carreira como cantora: Henrique e Juliano. Os irmãos, que faziam parte do mesmo escritório que ela, eram os maiores incentivadores de sua missão como cantora.É autora de duas canções que consagraram a dupla: “Até você voltar” e “Cuida bem dela”. São dela, também, “Calma”, de Jorge e Mateus, e “É com ela que eu estou”, de Cristiano Araújo — todas de quando sua voz ainda não era conhecida.

Pelas mãos de Wander Oliveira, na época já um dos principais empresários artísticos do Brasil, teve sua carreira anunciada com grande investimento e estrutura. O “produto Marília”, lançado em 2015, virou um fenômeno em 2016.

Porta-voz e de uma geração

Identificação e representatividade são termos que explicam bastante a ascensão meteórica da jovem, entre 2015 e 2016. Por que uma moça de 20 anos não poderia cantar seus sofrimentos, com uma garrafa na mão, para meninas iguais a ela? Por que só homens tinham esse direito? A quebra do padrão foi uma bomba no mercado de música sertaneja e abriu as portas para uma série de cantoras, que entraram e se mantiveram até hoje.

Surpreendeu, desde o início de seu sucesso, sua capacidade de transitar entre gêneros distantes do sertanejo. Ouvia Racionais no camarim, gostava de Dilsinho e da poesia de Vander Lee. Saltou a barreira do gênero ao gravar uma canção de autoria própria com Gal Gosta, a celebrada “Cuidando de Longe”. Fora de seu cercado sertanejo, cantou “Leão” em projeto recente do Xamã, e fez registros ao lado de Anitta, Péricles e Ivete Sangalo.

Na música sertaneja, gravou com Luan Santana, Chitãozinho e Xororó, Bruno e Marrone e com seus maiores ídolos, Zezé di Camargo e Luciano. Em 2017, gravou justamente com Roberta Miranda uma canção sobre empoderamento feminino: “Os tempos mudaram”.

Sua grande parceria artística surgiu quando ainda não era famosa: ao lado das gêmeas Maiara e Maraísa. Gravaram álbuns juntas e anunciaram, nesse último semestre, o projeto “Patroas”, que era a grande aposta delas para o ano que vem, e que trouxe músicas escritas pelas três na época do anonimato.

Juntas, as amigas compositoras e sonhadoras transformaram para sempre o estilo musical mais ouvido do país.

Marília é a perda mais dolorida que a música sertaneja já sentiu. Era sucesso, era porta-voz de uma geração e um grande exemplo para novas e novos artistas.

André Piunti é jornalista especializado em música sertaneja

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